CRÍTICA: “X-MEN: FÊNIX NEGRA” – O FIM DA ERA DA RAPOSA

Depois do fim do arco dos principais Vingadores em “Ultimato”, chega também ao fim a mais longeva franquia de filmes de super-heróis da história (“Os Novos Mutantes”, de 2020, ficará de fora por se tratar de um spin-off). A era dos X-Men na Fox, que durou incríveis 19 anos, se encerra com “Fênix Negra” e, sem dúvidas, deixará saudades devido a sua abordagem mais sóbria do gênero.

O filme, que finaliza o arco (e a bagunça cronológica) dos X-Men, explora os poderes de Jean Grey (Sophie Turner) que são ampliados por uma força galáctica desconhecida durante uma jornada no espaço dos X-Men a fim de resgatar astronautas de uma missão que deu errado no ano de 1992. A cena segue a formula básica de que, à princípio, tudo parece estar certo, mas logo algo de ruim inesperadamente acontece para dar continuidade e movimento à trama. Isso não é necessariamente um problema, mas por ser o último filme da saga, esperava-se que houvesse alguma subversão.

fenix negraJá adianto que o maior problema do filme, ao contrário do que acontece em “Vingadores: Ultimato” – e perdoem as comparações, mas elas são justificáveis dada a proximidade entre os filmes e o fato de ambos encerrarem grandes arcos –, é a falta de peso dos acontecimentos e a pouca ousadia dos roteiristas, que deveriam aproveitar a oportunidade de encerrar a franquia com um soco no estômago do espectador (no bom sentido, é claro). O que, para ser honesto, até acontece. O estômago do espectador é socado em uma ocasião na metade do filme, mas, em seguida, esse mesmo espectador é levado ao hospital mais próximo e tratado com o maior zelo possível, pois, apesar desse acontecimento ser relevante para a saga inteira e também para o arco individual do filme, ele parece não conseguir chegar a lugar algum. Há o choque do acontecimento, mas o seu desenrolar é insatisfatório por não gerar grandes consequências no contexto geral, mesmo sendo fundamental para o andamento da narrativa. Chega a ser paradoxal, talvez para combinar com a cronologia da saga.

Isso, de forma alguma, quer dizer o que “X-Men: Fênix Negra” seja ruim. Esses problemas seriam atenuados caso essa narrativa estivesse disposta no meio da saga. O problema está no fato de ser o último filme, o grand finale, portanto merecia algo maior, mais épico. O que me faz novamente evocar a carta do “Ultimato”. A obra dos irmãos Russo, durante toda a sua projeção, tem um ar nostálgico e agridoce de fim. Os acontecimentos possuem peso cênico, e isso se reflete na forma como o filme é recebido pelo público. “X-Men: Fênix Negra” não possui essa densidade dramática e isso faz falta.

O que não falta, por outro lado, são boas cenas de ação. O diretor, Simon Kinberg, soube explorar muito bem as particularidades de cada personagem para criar cenas de luta verossímeis e empolgantes. É perceptível o cuidado no ato de pensar o estilo de luta de cada personagem, não há uma padronização robotizada de movimentos escondidos atrás de zilhões de cortes que assassinam a sangue frio a espacialidade geográfica das cenas em troca de uma experiência sensorial preguiçosa. Cada personagem possui habilidades diferentes que influenciam a forma de se portar na batalha.

Inclusive, já que o assunto é batalha, faz-se importante ressaltar que os X-Men não são animais violentos que brigam no meio das ruas de Nova York, como mesmo apontou o Ciclope (Tye Sheridan). Entenderam, Vingadores, como se faz? Mas é claro, essa frase foi dita minutos antes de se iniciar uma briga generalizada nas ruas de Nova York. Um toque sutil, mas não tão sutil.

Sobre as personagens e as atuações, merecem destaque Mística (Jennifer Lawrence), Fera (Nicholas Hoult), responsáveis pelas cenas de maior teor dramático do longa. Sendo Hoult o responsável pela performance mais crível em uma cena em particular em que ele dialoga com Xavier (James McAvoy) na cozinha. Para Mística também sobram bons momentos, como aquele em que ela, em desavença com Xavier, sugere que o nome da equipe seja mudado para X-Woman, porque as mulheres da equipe foram responsáveis por salvar os demais membros em diversas ocasiões.

Esse é um detalhe interessante que acena para o que eram os X-Men, lá atrás, nos longínquos anos 2000 e 2003, com X-Men 1 e 2, respectivamente, quando havia no subtexto comentários sociais que ditavam o tom e davam um charme a mais para os filmes, por exemplo, quando uma mãe de um mutante questiona se o filho já tentou simplesmente não ser um mutante. Esses comentários sociais são o que constitui a alegoria por trás dos X-Men desde os tempos de Stan Lee nos quadrinhos. Esse conceito, infelizmente, foi perdido com o passar dos anos, principalmente depois que Bryan Singer deixou os mutantes pela primeira vez antes do horripilante “O Confronto Final”, de 2006, que, apesar de horripilante, não é um filme de terror.

Outras duas personagens que possuem destaque são: Charles Xavier e, é claro, Jean Grey. Xavier tem um arco interessante, porém pouco desenvolvido e, também, deslocado por se tratar do último filme da franquia. No espaço de tempo que há entre “Apocalipse” (2016) e “Fênix Negra” (2019), Xavier se torna um homem vaidoso que, quando não está atrás das câmeras se encontrando com figuras sociais importantes, como o presidente dos Estados Unidos, está no ápice de sua segurança particular sentado atrás de sua mesa.

É evidente que há uma redenção para a personagem, mas seu destino final, no máximo, tira um sorrisinho de lado do espectador, deixando um gosto amargo que vai tomando conta do paladar. Isso porque ele nunca se torna o professor Xavier altruísta de Patrick Stewart, deixando seu arco, de certa forma, incompleto. Há também um contraponto, pois, por inserir uma nova linha do tempo, esse núcleo abdica do “futuro” apresentado nos três primeiros filmes. Ainda assim, o final de Xavier é demasiadamente angustiante. E aqui cabe dizer que o final que me refiro é o da linha temporal de 1992 e não o visto em Logan, que faz jus a personagem por levar em consideração o “futuro” da trilogia inicial, não a versão alternativa de McAvoy que se encerra nos anos 90. Confuso.

Jean Grey é também afetada pela personagem de McAvoy, que mentiu para mutante ruiva sobre seu passado familiar quando ela era ainda uma menina. O momento é tão profundo que os roteiristas conseguiram enfiar Freud roteiro abaixo, com uma velada sutileza, para justificar a mudança de postura de Grey quando os muros de seu inconsciente caem e ela deixa de ser recalcada.

Apesar de tudo, é impossível falar que “Fênix Negra” é um filme ruim. Pelo contrário, a experiência de assisti-lo é agradável, o problema é sentar e pensar sobre essa experiência. Talvez isso seja um pouco de tristeza em um momento de adeus, o que geraria, quiçá, um sentimento de raiva mal direcionada. Não sei, possivelmente Freud explicaria. Ou até mesmo os roteiristas, já que gostam tanto disso.

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