CRÍTICA: “A LENDA DE GOLEM” – TRANSGRESSÃO EM ARGILA

A máxima de nunca julgar um livro pela capa – ou um filme pelo poster – nunca foi tão real. O poster de divulgação de The Golem, ou A Lenda de Golem, como foi lançado no Brasil, simplesmente sugere a ideia de que o filme nada mais é do que um terror dentro do padrão da indústria, o que o torna, à primeira vista, pouco atrativo. Entretanto, A Lenda de Golem explora caminhos para além do esperado de forma eficiente e significativa.

O filme se inicia com uma narração em off que introduz o conceito em um tom fabulesco, o que causa uma estranheza no espectador por não condizer com as convenções do gênero terror. Descobrimos, adiante, que essa primeira cena é na verdade um preâmbulo, uma introdução da história que veremos sob a perspectiva de uma personagem secundária que se encontra na trama principal.

A Lenda de GolemNesse preâmbulo, somos apresentados à figura do Golem, que acabou de cometer um massacre no que aparenta ser um templo sagrado – e isso não é spoiler. Ele está sendo contido por um rabino quando uma criança entra em cena em meio ao massacre. O interessante de se notar nessa cena é como a direção escolhe representar a figura do Golem, escondida nas sombras, sendo possível vislumbrar apenas sua silhueta, dando a ele uma aura de mistério e de desconhecido. Isso introduz um tema recorrente durante todo o longa-metragem: a transgressão. A ideia de fazer o que a sociedade proíbe ou entende como errado ou imoral, de ir contra as convenções estabelecidas. Pensando assim, o poster parece apropriado.

Outra coisa que advém da construção visual do Golem na primeira cena é a desconstrução que será feita dessa figura no decorrer do filme. O Golem do preâmbulo é de grande estatura, fazendo-se maior do que o rabino e do que os demais seres-humanos, estando em convergência com o esperado pelo imaginário social que existe em relação a essa criatura: um ser imponente, grande e visualmente ameaçador.

Aqui cabe fazer uma nota a respeito do que o Golem representa para a cultura judaica, pois a lenda por detrás da criatura é de suma importância para se entender o porquê de como são construídas algumas cenas chave no decorrer da projeção, inclusive o preâmbulo, que se passa em Praga.

A lenda mais famosa conta que um rabino da cidade de Praga criou um Golem feito de argila para defender seu vilarejo de ataques antissemitas. Dessa forma, a imagem dessa criatura evocava a ideia de proteção e salvação para os judeus. Entretanto, depois de passado algum tempo, a criação do rabino se tornou violenta e começou a assassinar os moradores do próprio vilarejo, trazendo o medo junto a necessidade de matar a criatura que fora tida anteriormente como a salvação.

No livro “As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay”, de Michael Chabon, é feito um paralelo entre a lenda judaica do Golem com o mundo dos super-heróis devido à concepção de que o Golem representa salvação para o povo judeu. Há uma reflexão de que o Golem é, para os judeus, uma espécie de super-herói, tendo influenciado inclusive a criação do próprio Super Homem, devido às origens judaicas de Jerry Siegel, e Joe Shuster, criadores do personagem da DC Comics. Tendo estabelecido esse paralelo entre o Golem e os super-heróis, a gramática cinematográfica de “A Lenda do Golem” se torna mais clara.

A trilha sonora, por exemplo, ajuda a criar e manter a alegoria do super-herói. As batidas triunfantes, que evocam a grandiosidade do retratado, remetem perfeitamente aos filmes da Marvel, e de forma nenhuma aos filmes de terror. Apesar do estranhamento inicial com a trilha, a escolha se mostra acertada na composição da temática em volta do Golem.

Golem, inclusive, que possui sua imagem desconstruída. No preâmbulo somos apresentados ao ser em sua forma mais comum da lenda: feito de argila grande e imponente. No restante do filme, o Golem toma a forma de um garoto magro e aparentemente indefeso. Novamente, o sentimento inicial ao ver como a criatura foi retratada é de estranhamento, mas analisando mais a fundo faz todo o sentido.

A figura infantil do Golem está ligada a outro tema presente no longa-metragem, o sexo. Um dos primeiros conflitos estabelecidos na trama é o fato de Perla (Brynie Furstenberg) estar há sete anos casada sem nunca conseguir ter um filho. Portanto, seu marido, Benjamin (Ishai Golan), é autorizado pelo rabino a se divorciar da mulher por ela ser infértil e incapaz de cumprir sua função social.

Dessa forma, o filme trás à tona a transgressão da mulher, porque além de ela não possuir filhos, ela ainda pratica, de maneira sigilosa, ritos religiosos permitidos apenas aos homens. E são essas duas características, a infertilidade e o interesse pela prática religiosa, que são a gênese e motivo para o Golem ser como ele é no filme, uma criança. Criança que não é fruto de uma relação entre homem e mulher e sim fruto de uma transgressão que se materializa na forma do garoto Golem, fazendo-se diferente do Golem gigante e ameaçador do início do filme que foi criado por um homem. Há, no decorrer do filme, diversos comentários semelhantes sobre os papeis sociais de gênero e, mesmo que aquela seja uma sociedade de outro tempo e lugar, os assuntos refletem como a sociedade de hoje se porta em muitas ocasiões.

Contudo, é necessário lembrar que se trata de um filme de terror. Um filme de terror que quebra convenções acertadamente em alguns momentos, mas que falha também em outros. Sendo assim, é preciso apontar que “A Lenda de Golem” falha em causar medo, espanto, repulsa ou algum outro sentimento normalmente associado aos filmes de terror. Somado a isso, o terceiro ato simplesmente não funciona. A lenda do Golem judaico é concretizada no final do filme em uma cena que destoa completamente do restante. O ritmo é muito acelerado e a escala da ação é exageradamente grande. Aqui cabe o adendo de que essa cena se encaixa na alegoria do super-herói, com a “batalha final”, mas por outro lado se torna descartável quando opera neste filme.

“A Lenda de Golem” é uma surpresa agradável. O filme consegue trabalhar temas complexos e distantes do terror sem, por grande parte da projeção, perder o tom, que só é perdido no terceiro ato. Mas o filme merece ser lembrado pelos seus acertos e por sua coragem de quebrar convenções e deixar uma marca autoral em um gênero tão desgastado ultimamente.

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