CRÍTICA: BLACK MIRROR S05 (2019): A PIADA DE MAL GOSTO DE CHARLIE BROOKER

“Isso é muito Black Mirror” é uma frase que acabou caindo no vocabulário popular após o sucesso da série antológica de ficção científica criada por Charlie Brooker e exibida no mundo todo pela Netflix. As histórias extrapolam o desenvolvimento tecnológico a fim de mostrar de forma bastante realista como os seres humanos reagem a essas evoluções, para o bem ou para o mal. Com isso, o próprio nome da série se tornou sinônimo de quando aplicativos e gadgets nos assustam tamanho seu avanço e eficiência.

Após explorar diversos temas e narrativas em suas quatro temporadas, não seria surpresa caso fosse anunciado o fim da série ou ao menos um logo hiato. No entanto, foi anunciada uma 5ª temporada, o que acabou sendo muito pior. Ao invés de terminar no auge, Brooker preferiu criar mais três episódios sem ter uma boa ideia do que escrever. Os roteiros não são nem um pouco “Black Mirror”.

Striking Vipers: A salvação da temporada

No primeiro episódio, acompanhamos Danny (Anthony Mackie), casado com Theo (Nicole Beharie), que ganha de seu melhor amigo Karl (Yahya Abdul-Mateen II) um jogo de realidade virtual. No entanto, o que era para ser um jogo de luta, acaba sendo usado para fins sexuais. Apesar de o roteiro ser mais fraco que muitos episódios da série, ainda temos aqui um bom desenvolvimento, com bons personagens e conflitos realistas o que torna a discussão do episódio mais palpável.

A parte tecnológica fica de lado. Ao invés de protagonista, aqui ela é somente um mecanismo de roteiro. Os humanos se tornam o foco maior e o episódio explora a relação entre os próprios personagens e não a relação deles com o virtual, como era feito nas outras temporadas. O enredo aborda temas como traição, atração física, casamento, rotina e sexualidade. Entretanto, aquilo que fez com que “Black Mirror” se tornasse tão popular, a relação do individuo e da sociedade com os rumos que o desenvolvimento tecnológico está seguindo, não é abordado no episódio. Apesar da boa história, a falta de essência temática o torna destoante do restante da série.

Smithereens: A tentativa falha de uma crítica social

Chris (Andrew Scott) é um motorista de aplicativo que sequestra Jaden (Damson Idris), um estagiário na Smithereens, uma rede social similar ao Twitter. A exigência do sequestrador é falar diretamente com o criador do site, Billy Bauer (Topher Grace). Aqui, também há aspectos interessantes a se discutir, como luto, culpa, depressão, mas nada disso é aprofundado. O foco acaba sendo uma crítica ao vício em aplicativos e redes sociais. No entanto, há diversos episódios em que é feita algo nesse sentido, porém melhor executados.

Aqui os personagens são caricatos, sem personalidade e com motivações pueris e não dão conta de convencer o expectador de seus dramas. Há cenas de diálogos que beiram o ridículo tamanha obviedade dos acontecimentos. No final, há uma tentativa de criar um plot twist que acaba tornando toda a saga do protagonista em algo completamente inútil e sem sentido. A impressão que fica é a de que havia uma boa ideia, mas pouco empenho e desenvolvê-la para se tornar algo realmente relevante.

Black Mirror s05Rachel, Jack and Ashley Too: Ridículo

Rachel (Angourie Rice) é uma adolescente que não consegue fazer amigos e vive em conflito com sua irmã roqueira Jack (Madison Davenport). A única coisa que a deixa feliz são as músicas da cantora pop Ashley O (Miley Cyrus). Ashley, apesar do sucesso, odeia a rotina de shows e quer fazer músicas diferentes, mas é impedida por sua tia e empresária Catherine (Susan Poufar), que a coloca em um coma químico e usa uma máquina pra extrair músicas de seu cérebro e criar um novo álbum. Com ajuda de uma boneca chamada Ashley Too, que possui uma cópia do cérebro da cantora, Rachel e Jack têm que salvar a vida da cantora e impedir sua tia malvada de cumprir seu objetivo.

Isso, é importante frisar, não é a sinopse de um filme musical adolescente do início dos anos 2000. É realmente um episódio de Black Mirror. Se o anterior beirava o ridículo, este abraça o ridículo sem dó nem piedade do público da série. Aqui, todos os personagens são caricatos, fracos e mal desenvolvidos. Há facilitações narrativas que parecem ser uma piada de mau gosto além dos clichês pessimamente utilizados. A tecnologia, que sempre foi o foco central da série se torna um mero artificio porco de roteiro no melhor estilo: “eu preciso fazer uma coisa, e olha, convenientemente, existe um aparelho capaz de realizar essa tarefa com o simples apertar de um botão!”

Não há desculpa que justifique a criação deste episódio. Ridículo.

O primeiro episódio, que normalmente seria o mais fraco em outras temporadas da série, acaba sendo o melhor desta. Os outros dois são não possuem capricho algum no roteiro. A impressão que nos passa é de algo que foi feito por fazer, sem vontade ou inspiração de se contar uma boa história. Isso tudo culmina no terceiro episódio em que o autor, Charlie Brooker, subestima e muito a inteligência de seu público.

A quinta temporada de Black Mirror é ridícula e sem dúvida uma grande decepção para os fãs da série. O fato de o foco principal ser menos em tecnologia e mais em relações interpessoais não seria um problema tão grave caso a construção das narrativas fosse boa. A grande questão é a falta de empenho e criatividade colocadas em cima destes três episódios. No fim, a única lição que fica é: melhor não fazer nada do que fazer mal feito.

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