CRÍTICA: “DOR E GLÓRIA” – QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO É MERA COINCIDÊNCIA

Salvador Mallo (Asier Flores) é um garotinho que vive em uma região humilde da Espanha. Apesar de morar com os pais, é com a mãe Jacinta Mallo (Penélope Cruz) que ele tem uma relação mais próxima. Jacinta é uma mulher forte, inteligente e insatisfeita com a condição de vida que oferece ao filho.

Dor y GloriaDeterminada a garantir um futuro melhor para o pequeno Salvador, Jacinta insiste que ele invista nos estudos para aprender uma profissão. Como resultado, o garoto se torna um verdadeiro prodígio, como um dos únicos alfabetizados em sua comunidade.

A habilidade de Salvador é até transformada por sua mãe em moeda de troca na vizinhança. As cenas em que o garoto ensina o vizinho pedreiro a ler e escrever, em troca de reparos domésticos, extrapolam todos os níveis de fofura.

O futuro de Salvador parece brilhante. Quando passa a frequentar o coral da escola de padres, o garoto descobre ainda um talento vocal que expõe uma verdade inegável: a arte corre em suas veias.

Decadência

Salvador cresce e, de fato, torna-se um grande artista. Mas não da música, do cinema. Nessa fase, o personagem é interpretado por Antonio Banderas. Quando o vemos com um cabelo volumoso jogado para trás – marca registrada do roteirista e diretor do filme, Pedro Almodóvar – não resta dúvidas de que estamos diante de uma obra autobiográfica, pelo menos em certa medida.

A interpretação de Banderas é um espetáculo à parte. O ator faz de Salvador um artista apegado a seus métodos e visivelmente atormentado pelos fantasmas de seu passado. Aspecto que fica evidente graças à habilidade do ator em expressar sentimentos. Ele aplica em seu trabalho a tese de seu personagem: “O melhor ator não é aquele que chora, é o que luta para conter as lágrimas”.

Salvador convive com as mais diversas dores, como de cabeça, estômago e costas. Mas a que mais lhe incomoda não é física. Ele luta contra uma depressão que lhe tira a motivação para fazer aquilo que ele mais ama: filmes. E, para piorar sua situação, Salvador ainda descobre os perigosos prazeres da heroína.

A Estratégia Narrativa

Engana-se quem pensa que estamos diante de uma história de ascensão e queda comum. Almodóvar está muito mais interessado em retratar os altos e baixos da vida do personagem, independente da ordem em que acontecem. Vemos o garoto prodígio, que parece ter uma vida inteira de sucesso pela frente, mas não o vemos atingir este potencial. Em “Dor e Glória”, o garoto sonhador está a apenas um corte de distância do velho cansado e deprimido.

A narrativa pode ser subdividida em etapas, cada uma delas marcada pela participação de uma figura importante da vida de Salvador: o ex parceiro de trabalho, com quem tem uma relação profissional intensa, marcada por vários encontros e desencontros criativos; a mãe, que teve um papel chave na formação de sua personalidade; o ex-amante, com quem tem vários assuntos inacabados; e o pedreiro analfabeto da infância, que exerceu forte influência no desenvolvimento de sua sexualidade.

Cada um deles contribui à sua maneira para a trajetória emocional do protagonista, que precisa urgentemente fazer as pazes consigo mesmo. E embarcar nessa jornada, proposta por Almodóvar, é um verdadeiro deleite. O cineasta engana, dá pistas falsas, hipnotiza e literalmente manipula as emoções e expectativas do público. A cena do reencontro entre Salvador e seu ex-namorado Federico (Leonardo Sbaraglia), por exemplo, com certeza provocará algumas reações nos espectadores.

Em suma, “Dor e Glória” é um filme sobre a luta contra a depressão. Que sugere o autoconhecimento como santo remédio para as dores da alma. Uma obra cativante, surpreendente e sensual, por meio da qual Pedro Almodóvar prova mais uma vez ser um grande contador de histórias.

 

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