CRÍTICA: “DESLEMBRO” – VIVER SEM CONHECER O PASSADO É ANDAR NO ESCURO

“A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver”, disse o artista Paul Klee, que se exilou da Alemanha em 1933 devido a ascensão do nazismo. Nos tempos em que fatos são escondidos e mensagens de redes sociais são consideradas verdades absolutas, um pouco de história não faz mal a ninguém. Principalmente se a verdade for tão dura que talvez exista a vontade de deslembrá-la, até mesmo para os que não a viveram na pele. Entretanto, por mais dura que seja a realidade, Flavia Castro não a esconde e baseia a obra “Deslembro” em sua história pessoal, sendo ela o nome por trás do roteiro e direção.

O filme conta a história da menina Joana (Jeanne Boudier), que foi embora do Brasil muito criança após ter o pai preso no período da Ditadura Militar. Em seguida a Anistia do governo, Joana volta do exílio francês com a mãe (Sara Antunes), o padrasto Luís (Julián Marras) e seus irmãos Paco (Arthur Vieira Raynaud) e Leon (Hugo Abreanches) para recomeçar a vida no Rio de Janeiro. Entretanto, não é nada fácil para a garota retornar ao país que torturou e assassinou seu pai.

DeslembroSe a perspectiva da narrativa é da adolescente e essa fase normalmente é considerada conturbada, para a personagem tudo é ainda mais confuso. Entre suas experiências com drogas, sexo e o primeiro amor, Joana tenta se lembrar de momentos vividos ao lado do pai, buscando construir sua identidade. Ao tentar se recordar, realidade e imaginação se misturam a ponto da personagem criar situações não existentes, tamanha é a vontade de ter algo para se apegar. Flávia Castro constrói imagens tão íntimas nos flashbacks de Joana que é quase impossível duvidar da lembrança mostrada.

Repleto de referências literárias em um momento de reflexão, o filme traz uma cena em que a personagem lê um poema de Fernando Pessoa, intitulado “Deslembro”. Cada verso lido se encaixa perfeitamente com a vida que ela tem levado. Essa cena específica de Jeanne Boudier, com sua atuação impecável do começo ao fim, traz para o telespectador toda a carga emocional da personagem, pois sabemos exatamente o quão dolorido foi para ela se lembrar de tantos momentos e depois saber que nem todos eram, de fato, reais e sim imaginação.

Além de todas as referências literárias e históricas, a obra também traz referências musicais com um clima de nostalgia, representado, sobretudo, por Ernesto (Antonio Carrara), o namorado de Joana, cantando e tocando Caetano Veloso. Ao lado de “Cajuína”, Rita Lee e The Doors compõem a trilha sonora e, como nos livros lidos por Joana e pelo pai, existe uma relação com a vida dos personagens.

Além da química entre Antonio Carrara e Jeanne Boudier, os momentos da protagonista com sua avó paterna Lúcia (Eliane Giardini) são carregados de diálogos cheios de empatia entre as duas, além de funcionarem como uma aula sutil sobre o que foi a ditadura no Brasil. A repressão com que viviam e, principalmente, como é devastador para as famílias que vivem buscando informações sobre entes que são considerados desaparecidos políticos.

Enfim, “Deslembro” é uma obra de arte que nos faz refletir sobre a importância de sabermos nossa história e a história de nosso povo. É uma narrativa sincera que coloca temas como política, sexo, drogas e família sob a lente de um turbilhão de emoções adolescentes. É inevitável não se identificar com pelo menos um desses aspectos do filme, que traz empatia e nos emociona profundamente em meio às lembranças e deslembranças de Joana.

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