CRÍTICA: “DEMOCRACIA EM VERTIGEM” – ENVELHECERÁ RÁPIDO, MAS COM BELAS RUGAS DE EXPRESSÃO

Diante de um evento marcante, é comum que os cineastas sintam o ímpeto de retratá-lo em um filme. Mas os grandes diretores são aqueles que resistem ao impulso inicial e conseguem esperar. O distanciamento histórico permite uma visão mais abrangente do contexto geral e reduz a possibilidade de erros.

No entanto, essa regra não está livre de exceções. “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, é um filme sobre a crise política brasileira feito no epicentro da mesma. A diretora poderia ter esperado alguns anos para contar uma história “fechada”, mas essa nunca foi sua intenção. O filme não é sobre os acontecimentos em si, mas sim sobre o sentimento de decepção e incerteza que eles despertam.

Democracia em VertigemA abordagem

O documentário narra a ascensão e queda dos governantes do PT. Vemos a consolidação de Luiz Inácio Lula da Silva como uma liderança trabalhista e sua persistência na disputa presidencial até a tão sonhada vitória, em 2002. Petra reúne alguns dos discursos mais marcantes da trajetória política do ex-metalúrgico, diante dos quais é impossível não se emocionar. Seus esforços para oferecer uma vida digna ao seu povo foram reconhecidos: Lula deixou o cargo em 2010, com altíssimos índices de aprovação.

Honesta, desde o início Petra deixa claro seu posicionamento ideológico. Mas isso não significa irresponsabilidade com as informações ou ausência de críticas à postura de Lula. Um exemplo é a aliança firmada pelo PT com o PMDB, apontada como um equívoco pela diretora.

Em seguida veio Dilma Rousseff. A primeira mulher a assumir a chefia do executivo no Brasil foi presa e torturada na época da ditadura militar e venceu um câncer, mas grandes desafios ainda estavam por vir. Os indícios de que a passagem de Dilma pelo cargo não seria fácil estavam presentes já no primeiro momento. Petra propõe uma análise da linguagem corporal do traidor Michel Temer durante a cerimônia de posse, em 2010: uma figura deslocada e visivelmente mal intencionada.

O início do fim

Petra reflete sobre a possibilidade de as manifestações de 2013 terem sido o início do fim para a frágil democracia brasileira. Com a multidão reunida nas ruas para expressar sua insatisfação, o gigante parecia ter mesmo acordado. Mas essa união, mais tarde, revelou-se uma grande ilusão. Estavam no mesmo grupo pessoas com ideologias opostas, de militantes da esquerda a defensores do regime militar.

Apesar de ser um movimento extremamente heterogêneo, foi o “apoio popular” que a classe política precisava para derrubar a presidente. Além de não estar disposta a entrar no jogo sujo da velha política praticada no congresso nacional, Dilma irritou os poderosos ao fechar o cerco contra a corrupção. No filme, Petra entrevista deputados que assumem o golpe sem constrangimento algum.

Em seguida, veio o show de horrores da votação do impeachment de Dilma na câmara, a perseguição política e prisão de Lula, e a ascensão de ideologias conservadoras e antidemocráticas. Uma história ainda sem desfecho (vide os vazamentos de conversas comprometedoras do Juiz Sérgio Moro, nas últimas semanas), sobre a qual Petra reflete com melancolia. O grande diferencial do filme é o paralelo que a cineasta faz entre o contexto político do Brasil e a história de sua própria família.

O traço autoral

Militantes, os pais de Petra foram perseguidos durante a ditadura. A diretora, que cresceu vendo seus pais votando em Lula, fez parte daquela multidão que comemorou euforicamente a vitória de 2002. É por meio das imagens de seu valioso acervo pessoal que podemos compreender melhor a frustração dos pais de Petra em presenciar a queda de uma democracia pela qual tanto batalharam.

A cineasta teve acesso a imagens valiosíssimas da intimidade de Lula e Dilma. Vemos a despedida alegre de Lula do Palácio da Alvorada ao final de seu segundo mandato, o conformismo com que Dilma acompanhou a votação de seu impeachment, e o desespero de Lula para evitar a prisão iminente. Mas a cereja do bolo é o encontro emocionante que Petra promove entre Dilma e sua mãe. Duas brasileiras que compartilham um passado de luta contra a opressão e um forte receio quanto ao futuro.

Poesia visual

O grande diferencial de “Democracia em Vertigem” é o olhar que a diretora lança aos acontecimentos. Suas reflexões são ilustradas por imagens simples, mas extremamente carregadas de significado. As paredes do Palácio da Alvorada, que presenciaram tantos momentos históricos; o faxineiro que reconstrói diariamente a bandeira brasileira, pisoteada no tapete do congresso; e as fotos de Dilma sendo recolhidas precocemente da residência oficial da presidência da república.

Petra ainda chama atenção por sua habilidade de retratar a realidade de um país inteiro por meio momentos cotidianos. Um cidadão com viés ideológico democrático discutindo com um defensor da ditadura em uma praça pública; os deputados pastores fazendo uma oração, vistos sob um ângulo no qual adquirem um tom sombrio e ameaçador; e as faxineiras do palácio comentando a fofoca do dia anterior: o afastamento de Dilma. Um momento aparentemente banal, mas que ilustra brilhantemente o abismo entre a classe política e a sociedade.

No fim das contas, “Democracia em Vertigem” conta uma história já conhecida. A novidade é o olhar apurado e sensível da diretora Petra Costa, que não somente narra, mas propõe uma série de reflexões. Ao assistir o filme, várias perguntas brotam na cabeça do espectador: A que ponto chegamos? Onde erramos? Somos mesmo tão impotentes?

Em um de seus discursos mais poderosos, Lula declara que não será silenciado: “Se não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês”. Uma referência à imortalidade das grandes ideias que também pode ser aplicada às grandes reflexões, como aquelas geradas pelas obras de arte. Em “Democracia em Vertigem”, Petra Costa fala por mim. Ela é a voz de uma geração que assiste, com lágrimas nos olhos, a queda da democracia brasileira.

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