FRAGMENTO INQUIETO: WHAT HAPPENED, MR. GERVAIS?

A elite de Hollywood foi tomada de assalto na 67ª edição do Globo de Ouro. No palco, o anfitrião daquela noite não parava de debochar da idiossincrasia dos atores e aplicou-se para tirar a limpo notícias saídas diretas das capas dos tabloides. Ciente do desconforto que causava, Ricky Gervais ensaiou uma mea culpa: sorridente, com um copo de cerveja em uma das mãos, deixou claro que sua intenção jamais foi ofender os presentes. Apontou inúmeras vezes para o copo e assumiu que não estava no seu normal. Por fim, tentou minimizar: “Eu gosto de uma bebida tanto quanto o próximo homem. A menos que o próximo homem seja Mel Gibson”.

Esse britânico da cidade de Reading, Inglaterra, ganhou fama ao apostar em uma comédia mordaz, ao melhor estilo “doa a quem doer”. Seu trabalho se destaca pela contundente mensagem que ele parece aflito em transmitir à sua maneira desbocada. O resultado ora é a concepção de um dos melhores exemplares de comédia ora polêmicas que ele fomenta em suas redes sociais. Seja como for, parece ciente do risco que seu estilo lhe traz, mas o abraça como se fosse imune aos seus efeitos.

Em suas intervenções, Gervais veste a máscara da persona arrogante para tecer, desinibido, comentários que, com maior ou menor intensidade, acaba respingando em diferentes camadas da sociedade. Em “The Office” (2001-2003), sua cultuada criação, ele se coloca no papel de David Brent — o inapropriado, racista, machista, egocêntrico gerente da Wernham Hogg— expondo o comportamento mesquinho (e patético) do ser humano.

Ele continuou julgando a frivolidade da fama em outra obra-prima, “Extras” (2005-2007), que narra as frustrantes tentativas de Andy Millman (Ricky Gervais) tornar-se um ator sério e, finalmente, deixar de ser um mero figurante. Assim, diversos atores interpretam versões escrachadas de si mesmo, abusando da metalinguagem.

Dando continuidade ao seu projeto de contratar autores consagrados para assinar suas produções, a Netflix lançou, no último mês de março, o trabalho mais recente de Ricky Gervais, a série “After Life”. Nela, Tony (Gervais) é um homem que acabou de perder a esposa, morta devido a um câncer. Depressivo, ele decide se suicidar. Porém, uma preocupação de última hora interrompe seus planos: se ele morrer, quem irá alimentar sua cadela? Optando por viver, Tony passa a descontar suas frustrações no universo, maltratando todos a sua volta.

Desde “Life’s Too Short” (2011-2013), Gervais não repete sua parceria com Stephen Merchant, com quem ainda divide créditos pela criação de “The Office”, “Extras”, “The Ricky Gervais Show” (2010-2012) e “Caindo no Mundo” (filme de 2010). Isso provoca uma mudança substancial em sua comédia.

Com controle criativo total sobre o produto, o britânico encontra uma chance de defender, por meio de seu trabalho, posições que já é de conhecimento público, tornando “After Life” uma versão estendida de seus tweets.

Os seis episódios que compõe a primeira temporada repetem-se em estrutura: centram-se no protagonista e subutiliza os demais personagens, que viram meros ouvintes de Tony. Desta forma, Gervais os divide por “nicho”, abordando, com cada um deles, temáticas recorrentes em suas redes sociais.

Kath (Diane Morgan) é a crente em quem Tony usa sua retórica para “comprovar” que Deus não existe. A novata Sandy (Mandeep Dhillon) é constantemente lembrada que o mundo é um lugar horrível, por isso ela não deve ser tão boazinha. Já seu amigo Lenny (Tony Way) torna-se constantemente alvo das piadas de Tony devido ao seu peso; comentários esses recebidos com indignação pelos demais colegas de trabalho, mas que dão a chance do protagonista iniciar um monólogo em defesa de sua livre expressão.

Em “After Life”, Ricky Gervais parece ter perdido o timing para a comédia; não pelo tom excessivamente dramático da série — algo já visto em “Derek” (2012-2014) — mas por apostar em um texto expositivo e moralista. Para seguir sua pregação, ele é capaz de eximir seu alter ego das consequências de seus atos para manter intocada sua nova visão de mundo ao mesmo tempo em que o culpabiliza por sua condição de depressivo suicida, indicando que sua redenção só seria possível por meio da boa vontade.

Ao lado de Merchant, Gervais encontrava o equilíbrio perfeito. Não que a tendência misantropa de Ricky não estivesse lá, mas com ela também surgia o contexto, responsável pela dupla conseguir fazer piada com tudo, seja sobre racismo ou sobre sexualidade, por exemplo; algo defendido veementemente por Gervais em seu espetáculo Humanity (2018).

No palco, ele discorre sua tese onde, a partir da segunda década do século XXI, as pessoas, em geral, se tornaram chatas, minando qualquer possibilidade de se fazer piada. A maior parte da reação dessas pessoas não advém de um interesse real pelo que é dito por ele, mas pelo simples prazer de gerar desavenças ao deturpar suas falas e descontextualizar seu ponto vista. E Gervais, mais do que ninguém, mostrou que o contexto possibilita abordar tabus de uma maneira bem-humorada, distinguindo piadas racistas de piadas sobre racismo.

Mas, assim como diversos haters distorcem ideias alheias para manchar reputações e iniciarem perseguições — principalmente as virtuais, dado o advento das redes sociais — Gervais cai em outro tipo de covardia ao assumir uma posição dogmática quando fala-se em limite no humor: ditar regras estando ele em condição de privilégio.

Um ano depois de ironizar os problemas alcoólicos de Mel Gibson, Gervais voltou a apresentar o Globo de Ouro e mirou seus comentários em alvos fáceis, seja insistindo em piadas sobre Kim Kardashian ou ao insinuar sobre a sexualidade de Tom Cruise e John Travolta.

Diferentemente de Extras, que utilizava de estereótipos para criticá-los, Gervais usou do senso comum sem subvertê-lo. Esse senso comum pode alimentar estigmas que mantêm diferentes grupos às margens da sociedade. Quando defende em “After Life” que uma piada é apenas uma piada, Gervais foca na questão subjetiva, ignorando a posição em que ele e o alvo de suas piadas encontram-se na pirâmide social, colaborando, assim, para a manutenção dessa hierarquia.

É difícil saber se ao lado de Stephen Merchant, Ricky Gervais não poderia ter criado o “Fawlty Towers” (1975-1979) de nossa geração. O “Basil Fawlty”, criado por John Cleese e Connie Booth, era um dono de uma espelunca, esnobe e arrogante, que exigia de seus hospedes uma conduta impecável, a qual ele mesmo achava conservar. Mas, ao confrontar-se com a realidade, Basil era vítima das contradições da diversidade e do choque de ideias que expunha suas hipocrisias, gerando nos espectadores lágrimas de risos.

Quando protege seu Tony dessa pluralidade, Gervais sabota o potencial narrativo de “After Life”, mas garante a segunda temporada na Netflix. Are you having a laugh, mr. Gervais!? Is he having a laugh?

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