CRÍTICA: “HOMEM-ARANHA: LONGE DE CASA” – CURTINDO A EUROPA ADOIDADO

O texto não contém spoilers. 

A palavra “infâmia” só deveria ser escrita em Comic Sans. Na internet, a fonte se tornou um símbolo, marcando a intenção de uma pessoa em tirar sarro de alguma coisa. Dessa forma, ao se apropriar de uma estética intencionalmente tosca, a infâmia em Comic Sans assumiu traços positivos que desenham um determinado tom, um tom irônico, e, até mesmo, satírico em algumas ocasiões. Logo no início de “Homem Aranha – Longe de Casa”, há uma homenagem feita pelo jornal da escola de Peter Parker (Tom Holland) ao Homem de Ferro. A fonte usada na reportagem? Comic Sans. Uma escolha perfeita que estabelece de antemão a abordagem adotada no filme, que é a da infâmia, no sentido bom e não dicionarizado da palavra.

É presente, logo nos habituais créditos de abertura da Marvel, a abordagem debochada e leve que perdurará por toda a projeção. A música escolhida para essa abertura, que precede a cena em homenagem à Tony Star, é I will always love you, de Whitney Houston, contrastando fortemente com a melancolia evocada por Dear Mr Fantasy, do Traffic, na abertura do magnífico “Vingadores: Ultimato”. Se antes a música estabelecia um tom urgente de tristeza e desesperança, intensificando o sentimento de despedida, aqui temos um sentimento debochado de leveza que, apesar de estar relacionado a um acontecimento triste e impactante, indica a esperança de um recomeço com novas possibilidades e, de quebra, introduz e estabelece a tônica da cena posterior e de todo o filme.

Far From Home.jpgAssim como “De Volta ao Lar”, a continuação mantém o foco nas personagens, sem deixar de lado as pirotécnicas do gênero Super-Heróis (acho que já podemos chamar de gênero, não é?). É, portanto, novamente o encontro entre John Hughes, Super-Heróis e millennials. Eu sei, eu sei, quando falamos em millenials, normalmente, nos referimos a uma conotação negativa, mas não neste caso. O filme, neste aspecto, é muito semelhante a “Booksmart”, que é quase um manifesto millennial no melhor dos sentidos, pois usa de uma estética e temática condizentes com a geração retratada em tela. “Longe de Casa” fica longe da coragem de “Booksmart” em inovar na direção, mas a intenção é boa.

É importante, então, falar do diretor, Jon Watts, que demonstra se sentir mais confortável para imprimir seu estilo no longa. Para quem não sabe, Watts, antes de dirigir “De Volta ao Lar”, seu primeiro longa-metragem, produzia curta-metragens independentes e descompromissados para o YouTube em seu canal Waverly Films. O tom de deboche era latente em seus argumentos e técnicas de direção, sendo um bom exemplo o curta “Wanna Buy a Ghost?”, em que um homem afetado vende um fantasma para outro igualmente afetado. A estética tosca, “Comic Sanesca”, era muito forte em seus trabalhos pré-Hollywood, que abusavam de efeitos especiais, aberta e intencionalmente malfeitos, atuações exageradas e situações absurdas. Com exceção dos efeitos especiais, todas as outras características estão presentes em seu novo filme. O destaque vai para uma cena em particular que envolve um drone e um ônibus recheado de adolescentes: é absurdo, ilógico e hilário.

Watts não se envergonha e abraça inteiramente o caráter quadrinesco do Homem Aranha. Alguns mais enjoados dirão que “parece que foi feito para crianças”, ou pior, que “poderia ser melhor se respeitasse os aspectos x ou y dos quadrinhos”. Bobagem. Esses comentários não passam de protecionismo barato de leitores de quadrinho que não entendem que a estória que eles veem na tela não é a mesma que eles leem nas páginas das revistinhas. E ainda bem que não. Esse é o mesmo problema que tanto afetou “Star Wars: O Último Jedi”: os fãs vão para a sala do cinema esperando confirmação cinematográfica de suas teorias e expectativas que mantêm os valores sociais de quando as primeiras estórias foram lançadas. Isso demonstra uma incapacidade incabível de perceber que o mundo muda e, portanto, as personagens e estórias também.

Há mais de 2 mil anos, Aristóteles já entendia que arte é imitação (mimeses), conceito que foi evoluindo e sendo refinado com o tempo, é claro, mas não o tornando menos importante. Essa imitação leva em consideração um momento social específico, então é claro que o Peter Parker dos anos 70 não vai ser o mesmo de agora. Mas não, quem está certo é o revoltado cibernético que engordura o teclado com os dedos sujos de Doritos para reclamar que Parker não aprendeu todas as lições de sua vida com a morte do Tio Ben, que Flash Thompson (Tony Revolori) é digital influencer, que Tia May (Marisa Tomei) é jovial e outras besteiras do tipo.

O que eu quero dizer é que no processo de adaptação e atualização a personagem tem sua sobrevida garantida. Caso não houvesse releituras que atualizam a personagem, ela seria esquecida. Ora, Romeu e Julieta se apaixonaram em uma Los Angeles fictícia em 1996, foram personagens de mangá, e assumiram as peles de Cebolinha e Mônica, o que contribuiu para que as personagens clássicas de Shakespeare permanecessem culturalmente vivas e relevantes na sociedade. Um bom exemplo é o fato de que o Peter Parker de Holland nunca tocou em uma câmera. E qual seria o motivo? Em um mundo em que qualquer pessoa tem a capacidade de pegar seu celular e registrar um momento, acaba por tornar-se obsoleto o conceito de Parker fotógrafo. É necessário explorar o que há de relevante hoje para que o filme não estreie nas salas de cinema com cheiro de naftalina.

Outro ponto que torcerá o nariz de muitos fãs-conservadores-nos-costumes-fictícios é a personagem de Jake Gyllenhaal, Mystério. Sua principal característica nos quadrinhos é ser um ator fracassado com grandes conhecimentos de efeitos especiais que permitem que crie ilusões e confunda seus opositores. Porém, os roteiristas, Chris McKenna e Erik Sommers, tomam algumas decisões para a personagem que diferem da origem nos quadrinhos. Com isso, eles mostram entender o espírito da coisa, atualizar e recontextualizar a estória para um público novo.

É claro, alguns problemas aparecem aqui e ali. O filme perde um pouco o ritmo no segundo ato e algumas piadas não acertam o alvo, mas nada grave, nada que estrague a experiência. No final das contas, o tom infame de conotação positiva não dicionarizada persiste, sendo leve, debochado, engraçado e eficiente. É um filme escrito em Comic Sans e, em pleno 2019, isso é uma coisa boa. Vá você entender esses millennials

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