CRÍTICA: “I TRAPPED THE DEVIL” (2019) – A INDEPENDÊNCIA DO TERROR INDEPENDENTE

Produções independentes podem ser muito fascinantes. Tudo é milimetricamente contado, cada centavo e cada minuto. O simples ato de se conseguir um lançamento comercial ou de ter o filme exposto para o público é definitivamente uma vitória. “I Trapped The Devil”, filme escrito e dirigido por Josh Lobo, inspirado no episódio “The Hollowing Man”, de “Twilight Zone”, se enquadra perfeitamente nessas características.

Como muitos filmes que partilham dessas singularidades do cinema independente, “I Trapped The Devil” faz uso de uma unidade de espaço. Quase todo o desenrolar da trama acontece no interior de uma casa. O diretor/roteirista consegue imprimir significado a essa dificuldade de produção criando um sentimento de enclausuramento, uma vez que as três personagens principais que compõem a história, depois de adentrar o local, jamais o deixam. Essas personagens são Matt (AJ Bowen) e Karen (Susan Burke), um casal, e Steve (Scott Poythress), irmão de Matt. O casal vai visitar Steve depois de um incidente, que não é explicitamente mencionado. Chegando à casa, eles descobrem que o anfitrião mantém um homem preso (trapped) no porão, que ele diz ser a própria encarnação do demônio (mostrando a sutileza do título).

I trapped the devilEsses atores desempenham seus papeis de forma inconsistente, mas há um motivo para isso. Todas as cenas foram filmadas em apenas nove dias, portanto é de se esperar que alguns dos takes fossem ser apressados para que o tempo de filmagem não extrapolasse o limite. Como resultado, as performances de algumas cenas parecem engessadas, dando a impressão de que poderiam ser melhoradas com mais algumas tentativas. Bowen e Burke são os que mais sofrem com isso, pois apesar de estarem bem em alguns momentos, em outros não convencem, entregando linhas de diálogo sem peso cênico devido às hesitações forçadas na fala. Poythress, por outro lado, segura bem sua performance por toda a projeção, se tornando assim um dos destaques positivos do longa. Ele entrega uma personagem instável, com a intensidade necessária para compor o crescente suspense do enredo.

Cabe ressaltar, no entanto, que mesmo sendo crescente a ação, a curva de ascensão da narrativa é pouco inclinada, configurando o ritmo lento da trama. O diretor não economiza minutos para construir lentamente a ambientação e ditar o tom de sua história. A fotografia contribui – e muito – para isso. A iluminação, que contrasta luzes vermelhas e azuis, marca a incerteza das personagens em relação ao acontecimento, será mesmo o diabo que está preso atrás daquela porta? A direção de cena também contribui para estabelecer o clima. Em alguns momentos, a câmera enquadra as personagens através de portas ou as usa para compor as cenas. O objeto porta é muito simbólico para o filme por trazer a representação de passagem, o que parece ser o maior conflito para Steve por causa de seu nebuloso e trágico passado. Parece, apenas porque Lobo não tem intenção nenhuma de responder diretamente todas as perguntas levantadas pela a narrativa.

O diretor não questiona a inteligência do espectador, pois o encarrega de preencher as lacunas deixadas estrategicamente na história. Assim, o retorno à obra se torna um exercício fundamental para entender os pormenores do enredo, pois é certo que há várias pistas deixadas a fim de que o sentido seja, aos poucos, construído. Nesse aspecto, o longa assume um caráter lúdico, de jogo mesmo, pois o espectador não recebe a obra passivamente, ele precisa agir para desvendá-la.

Em meio a toda essa atmosfera de incerteza e suspense, Lobo entrega eficazes cenas de terror. Não há, aqui, jumpscares ou cenas chocantes de horror gráfico. Tudo é pautado no andamento da narrativa e na construção da ambientação. Alguns dirão que é demasiadamente lento e que “nada acontece”, o que considero injusto, pois, como foi feito em “A Bruxa”, o horror reside nas nuances e no pacto do espectador com a obra.

“I Trapped The Devil” é um interessante jogo cinematográfico que inspira retornos por confiar em seu espectador. Além disso, inspira também no sentido artístico do ato de se fazer um filme de terror, pois, mesmo com todos os erros e dificuldades na produção, Josh Lobo entrega algo diferente. Diferente dos bons, porém convencionais, filmes da Bloomhouse e também diferente dos igualmente bons, porém transgressores, da A24. Há, sim, uma clara inspiração no episódio “The Hollowing Man”, da versão original de “Twilight Zone,” o que definitivamente não se configura como plágio. O que temos aqui é uma releitura, e mais do que isso, uma releitura com a marca de um autor em formação.

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