FRAGMENTO INQUIETO: A CLASSE OPERÁRIA VAI AO ‘STRIP CLUB’

Há algumas décadas, um fenômeno era comum nos cinemas. Sem as inúmeras franquias ocupando a maioria das salas, filmes com orçamentos inexpressivos tinham a chance de se converterem em grandes hits. Eles chegavam de forma limitada ao circuito comercial e contavam com o boca a boca para ganhar fama.

Apesar de Quentin Tarantino já ter mostrado o potencial de tornar o indie uma indústria — ao vencer a Palma de Ouro em Cannes com “Pulp Fiction” (8 milhões de dólares de orçamento, 213 milhões em bilheteria) em 1994 — somente no último terço dos anos de 1990 é que os grandes estúdios entenderam que não tratava-se de exceções: pequenos orçamentos viraram chances reais de grandes lucros.

A melhor demonstração de poder por parte de uma história contada com poucos recursos ocorreu em 1999, quando alguns amigos se reuniram para gravar um mockumentary e utilizaram a internet para divulgá-lo, fingindo que o argumento do filme era uma espécie de lenda urbana. A história se tornou viral antes mesmo do termo existir ou da internet tornar-se o campo de batalha que é hoje em dia. A brincadeira custou 60 mil dólares; “A Bruxa de Blair” arrecadou em bilheteria 250 milhões de dólares internacionalmente.

Os gigantes de Hollywood, então, criaram suas próprias divisões de filmes independentes. Agora, ou eles iam a festivais em busca de potenciais sucessos comerciais — comprando os direitos de distribuição sem arcar com custo de produção — ou coproduziam películas de autores em ascensão. Surgiu, assim, a Warner Independent Films (descontinuada em 2008), Sony Pictures Classics, Focus Features e, a mais bem-sucedida, Fox Searchlight.

Com esses selos, o rol de filmes, ultrapassando os 100 milhões de dólares em bilheteria, apesar de seu orçamento não chegar a um terço desse valor, foi ampliado e a temporada de prêmios passou a ser dominada pelo cinema marginal. Filmes como “Casamento Grego”, de 2002 ($5 milhões de dólares de orçamento para $368 milhões de dólares em bilheteria); “O Segredo de Brokeback Mountain”, de 2005 ($14 milhões de orçamento para $178 milhões em bilheteria); “Pequena Miss Sunshine”, de 2006 ($8 milhões de orçamento para $100 milhões em bilheteria); “Juno”, de 2007 ($7,5 milhões de dólares em orçamento para $230 milhões em bilheteria) e “Quem Quer Ser Um Milionário”, de 2008 ($15 milhões em orçamento, para $377 milhões de dólares em bilheteria) obtiveram aclamação da crítica e do público em um modelo que alcançou a solidez na última década.

Os filmes citados não seguiram uma fórmula preestabelecida que garantiria seu sucesso imediato, tampouco estiveram interessados em encontrar um estilo que lhe dessem status em festivais como o Sundance, que visam um público privilegiado. Se há algo que une cada um desses títulos — além do sucesso na bilheteria — é a sua mensagem universal, capaz de tocar plateias de diferentes culturas, graças à sua forma única de contar uma história. É assim que “Ou Tudo Ou Nada” (“The Full Monty”, 1997) transpassa sua data de lançamento e torna-se um filme essencial para nosso tempo, seja devido ao contexto histórico em que vivemos, seja pela ausência de grandes comédias em exibição.

O filme se passa em Sheffield, Inglaterra, uma antiga cidade industrial acometida pelo desemprego massivo. Ex operário de uma siderúrgica, Gaz frequenta O Clube do Emprego na procura por uma vaga — isso quando não opta por roubar vigas na antiga fábrica em busca de alguns trocados. Ele entra em pânico quando sua antiga esposa entra na justiça para conseguir a guarda integral de seu filho, Nathan. O único modo de evitar o afastamento do filho é pagando a pensão atrasada. Inspirado nas apresentações do Chippendale Dancers, que causaram frisson nas mulheres da cidade, Gaz se une ao seu amigo, Dave, na tentativa de formar um grupo de strip-tease masculino. Mas diferentemente do que os jovens sarados do Chippendale fazem, Gaz promete nudez frontal total, o full monty do título.

“Ou Tudo Ou Nada” custou $3,5 milhões de dólares, arrecadando $257 milhões mundialmente, além de ser indicado a quatro estatuetas do Oscar. Apesar de focar nos ensaios do grupo, o filme tem como plano de fundo um Reino Unido assolado pela doutrina econômica de Margaret Thatcher, possível apenas pela grande crise do capitalismo dos anos de 1970. Os personagens sofrem da política austera do Thatcherismo, o que os levam a medidas extremas que serve como gatilho para Simon Beaufoy desenvolver situações legitimamente hilárias em seu roteiro.

Nessa reorganização do trabalho, as vagas são limitadas e o desemprego estrutural, descartando diversos profissionais considerados ultrapassados. Gerald, por exemplo, o antigo capataz da fábrica, divide o espaço do Clube do Emprego com outros subordinados. Quando finalmente tem uma entrevista agendada, é questionado se após tantos meses fora do mercado de trabalho ele seria capaz de adaptar-se aos novos tempos. Sabotado por Gaz e Dave — ilustrando a competitividade que o contexto cria entre uma classe — ele decide ajudá-los no ensaio, já que frequenta aulas de dança com sua esposa, para quem mente que tem um emprego, apenas para manter o padrão de vida que a mulher tanto almeja.

No próprio grupo que se prepara para a apresentação, há diversas representações da desregulação nas relações de trabalho no Thatcherismo. Guy vive da informalidade, de pequenos bicos; Horse é considerado velho demais para um mercado cada vez mais exigente; já o solitário Lomper, o único empregado, ilustra que sempre há quem lucre no pior dos cenários, prestando serviço para uma empresa que garante a segurança da propriedade da antiga fábrica.

Sem conseguirem se adaptar a conjuntura — que privatiza a indústria do aço e a retira de Sheffield — e sem saberem fazer nada exceto trabalharem na metalúrgica que por anos foi o seu sustento, os homens do filme se sentem inúteis, obsoletos. Entra em cena, então, a questão da masculinidade, bem explorada pelo roteiro.

Como operários que são, os homens sabem que com a força do trabalho eles podem produzir algo. A coreografia que eles ensaiam seria o esforço necessário para que haja um efeito, a produção de algo. Nesse caso, a consequência do trabalho não os levaria a produzir o material, o sólido, mas produziria sensações, êxtases em milhares de mulheres que prometeram lotar o bar no dia da apresentação. A matéria-prima, outrora o aço, torna-se os próprios corpos dos personagens. Uma vez que esses corpos não se sentem úteis para produzir, eles não são considerados úteis para causar o efeito que as mulheres desejam.

O arco dramático de Dave é o mais interessante por explorar sua autoestima. Enquanto se preparam na câmera de bronzeamento de Gerald, Dave intervém após Lomper comentar sobre os seios de uma modelo em uma revista. Ele ironiza, dizendo torcer para que as mulheres que os assistiriam fossem mais benevolentes com eles. “Já imaginaram elas se virando e comentando: ‘Ele é gordo demais, velho demais e tem o peito de pombo’?”. Lomper, desesperado, diz que a julgou apenas porque é isso que os homens fazem e, na verdade, acredita que a modelo tenha uma ótima personalidade. “Elas não vão julgar sua personalidade; o que é bom, porque você é basicamente um idiota”, finaliza Dave.

É relevante, também, que Dave sofra de impotência sexual e seu casamento com Jean esteja em crise. A inversão de papéis tornou-se comum desde a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres saíram de casa e se tornaram assalariadas, enquanto os homens ou voltavam da guerra mutilados ou morriam no campo de batalha. Uma vez desempregado, Dave vê Jean se tornar a provedora do lar; independente, ela, inclusive, usa seu dinheiro para ver o Chippendale Dancers.

Sua masculinidade encontra-se em risco, uma vez que o homem é condicionado a ser o líder e demonstrar força mesmo na adversidade. Dave, porém, encontra-se impotente em diversos aspectos, o que o impossibilita de continuar nos ensaios, desistindo temporariamente da apresentação.

É interessante destacar que os assuntos abordados em “Ou Tudo Ou Nada” seguem atuais, inclusive sendo ainda debatidos. A herança do Thatcherismo é forte não apenas no Reino Unido, mas é uma tendência que se alastrou em todas as partes do mundo. Já essa sensação de não pertencimento, ocasionada por diversas mudanças culturais, afligem homens que estão à parte da discussão sobre emancipação feminina e diversidade — gerando, em alguns casos, um injusto repúdio às pautas.

Os grandes estúdios encontraram nas comédias desbocadas, como a franquia “Se Beber Não Case”, um novo modo de ganhar dinheiro gastando pouco, reduzindo os chamados filmes artísticos a exibições limitadas com o único intuito de estarem aptos para concorrem a inúmeros prêmios. Não por acaso, as últimas edições do Oscar contam com títulos desconhecidos por grande parte do público — e, não por acaso, para maior apelo comercial, a Academia tentou incorporar (sem sucesso) a categoria de “melhor filme popular”.

Nem só de baixo orçamento se faz um bom filme, tanto que a lista que compõe a chamada Era de Ouro do cinema foi produzida no coração de Hollywood. A própria cena underground forma uma elite, conseguindo com maior ou menor facilidade bancar seus próprios projetos sem o aparato do modelo tradicional. Os diversos filmes citados aqui encontraram um contexto propício para seu sucesso; cada vez mais cíclico, o cinema mainstream passou a dar espaço a seres voadores do mesmo modo que premiava vídeos caseiros filmados com um punhado de dólares. O que importa é que a narrativa continue em movimento.

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