CRÍTICA: REI LEÃO (2019) – MESMA HISTÓRIA, NOVO ESTILO

Nostalgia é uma sensação poderosa. A partir dela, conseguimos retomar momentos da tenra infância e sentir que algo especial nos está sendo apresentado. “O Rei Leão” é o mais novo “live-action” – o que ainda soa estranho dizer – da Disney. Temos, então, em tela, cenas e músicas que fizeram parte da infância de boa parte da geração dos criados pelos anos 90. Nesse sentido, é fácil comprar a ideia de que ir ao cinema para rever a jornada de Simba (JD McCrary e Donald Glover) em um novo formato é interessante. E é. Só não é inovador no que tange o enredo. Entretanto, é preciso admitir que, em questões técnicas, o filme se atualiza. Novamente, vemos Simba ser manipulado e exilado por seu tio, Scar (Chiwetel Ejiofor), e assistimos ao seu percurso de crescimento ao lado de Timão (Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen), que levam a vida um tanto quanto diferente do modo que o leãozinho estava acostumado. Aqui, o fanservice está garantido com Hakuna Matata e sua lição sobre deixar os problemas no passado.

Dessa forma, a poderosa sensação de nostalgia assume um caráter perigoso, pois castra a criatividade, e é, principalmente, lucrativo, uma vez que só no Brasil, até o dia 22/07, o filme arrecadou mais de 67 milhões de reais. Transpor o formato animação para o formato “live-action” é uma das principais apostas da companhia estadunidense, que pretende encher, ainda mais, seus cofres com o lançamento de “A Dama e o Vagabundo”, em novembro de 2019, “Mulan”, em março de 2020 e “Cruella”, em dezembro de 2020. Essa transposição parece estar sendo sustentada pelo público, por toda a internet é possível encontrar listas de filmes da Disney que o espectador julga merecedor de um remake. E, diante desse cenário, surge o questionamento: qual o objetivo de lançar um filme – como foi o caso de “Rei Leão” – se não há a menor inovação no enredo?

leaozinhoA resposta é bastante simples e já fora anunciada neste texto: para o estúdio, é intelectualmente preguiçoso relançar uma obra consolidada e, para o espectador, é fascinante assistir nossos personagens favoritos ganhando traços realistas em tela. A Disney, como produtora, acertou nisso. Há um contexto mais realista na versão de 2019 já que o “live-action” abre mão da configuração presente na animação de 1994, dirigida por Rob Minkoff e Roger Allers. Então, não espere encontrar hienas que fazem sopa em panelas, lançam foguetes em comemoração e participam sincronizadamente de um desfile satírico ao nazismo. Aqui, houve uma adequação ao ambiente em que vive a alcateia, inicialmente, liderada por Mufasa (novamente dublado por James Earl Jones): as leoas ganham mais pano de fundo e poder – o que é representado pela resistência ao vilão Scar por parte de Sarabi (Alfre Woodard), mãe de Simba, e pela força de Nala (Beyoncé Knowles), que toma a iniciativa para se opor a liderança de Scar. Ainda convém mencionar que a caracterização das hienas também foi adequada para o novo formato lançado, a apresentação dessa espécie no filme de Jon Favreau é assustadora e ganha a liderança de Shenzi (Florence Kasumba).

Ainda sobre os pontos positivos, é preciso apontar, com bastante louvor, a dublagem de Billy Eichner e Seth Rogen. Os atores se mostram confortáveis em seus papéis e entregam personagens extremamente cômicos. Tal louvor não pode ser direcionado a dublagem feita por Donald Glover e Beyoncé Knowles. Glover, que já se consolidou como um ótimo ator em “Community” (2009 – 2015) e “Atlanta” (2016 – ), não convenceu na voz de Simba e, por vezes, era natural fazer a associação entre personagem e ator, quebrando a imersão do espectador.  Em relação a Beyoncé, a cantora, mesmo com alguns filmes em sua biografia, não soa orgânica como Nala e causa o mesmo problema que Glover.

Em contrapartida, o arco da narrativa da versão de 2019 é exatamente o mesmo da animação de 1994. A apresentação, do nascer do sol à vinheta de corte seco, a complicação, o clímax e o desfecho são construídos por Favreau como uma versão “live-action” do que já nos foi contado em 1994. Nessa perspectiva, fica no ar a ideia de o que atual filme mais parece uma remasterização, a produção da mesma obra com uma maior qualidade, do que um remake.

Embora seja mais do que necessário analisar um filme pelo que ele entrega, é muito complexo deixar de imaginar que a proposta de um remake de “Rei Leão” poderia oferecer alguma manutenção do enredo para a atualização da obra. As mudanças apresentadas para as personagens não afetam em nada no arco da narrativa e assistimos, praticamente, ao mesmo filme de 1994 com uma qualidade pioneira nesse estilo de animação ultrarrealista. Nesse sentido, é evidente que a castração da criatividade em prol do lucro prevalece e a recompensa pela repetição é a sensação de nostalgia que, por mais que seja fascinante, irá terminar, deixando para trás apenas o hábito de comparar o que há no primeiro filme e o que foi atualizado – em questões técnicas – para o segundo. No final das contas, daqui um tempo, as comparações também serão deixadas de lado e somente a animação de 1994 será lembrada, reiterando a ausência de necessidade da versão em “live-action”.

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