CRÍTICA: “TED BUNDY: A IRRESISTÍVEL FACE DO MAL” (2019) – OMISSÃO EM CENA

Atualmente, é perfeitamente possível identificar Charles Manson como a figura que inseriu assassinos em série na cultura pop – por mais estranho e desumano que isso soe. Ele pode não ter assassinado Sharon Tate, esposa do diretor Roman Polanski, com suas próprias mãos, mas, a partir de suas ideologias que alimentavam diversos seguidores, o grupo “Família Manson” assassinou diversas pessoas com o intuito de causar uma guerra entre negros e brancos. Para Manson, os brancos se sobressairiam como soberanos. Os crimes ganharam repercussão internacional e, desde então, têm ganhando adaptações cinematográficas: o próximo filme de Quentin Tarantino, “Once Upon a Time in Hollywood”, contará a história de Manson e o assassinato de Tate. Além disso, a recorrência da temática aparece em filmes consagrados, como “O Silêncio dos Inocentes”, dirigido por Jonathan Demme, e séries como Mindhunter, desenvolvida por Joe Penhall.

Nesse sentido, temos o lançamento de “Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile”, que em português recebe o título de “Ted Bundy: a Irresistível Face do Mal”, assinado por Joe Berlinger. O filme é baseado no livro “The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy”, escrito pela ex-namorada Elizabeth “Liz” Kendall. Então, a trama acompanha a perspectiva de Liz (Lily Collins), namorada de Ted Bundy (Zac Efron) e, portanto, privilegia o olhar da personagem diante dos acontecimentos. Sob esse recorte, não temos em tela os assassinatos cometidos por Bundy, temos a sua insistente negação diante da namorada, que, em um primeiro momento, não acredita que o amado possa ter cometido tantos crimes hediondos. Durante boa parte da narrativa, acompanhamos o sofrimento de Liz assistindo aos julgamentos por meio da mídia e se utilizando do álcool em busca de conforto. A negação de Ted é questionada pela interprete de Lily Collins, ou pelo menos se mostra ser, quando temos a cena em flashback mostrando que a personagem denunciou Bundy como possível suspeito de um dos crimes midializados.

Ted BundyParece que o recorte escolhido enfatiza muito mais o lado namorado amoroso, possível padrasto protetor e atencioso visto sobre Bundy. Essas atitudes trazem humanidade para o personagem, enquanto o lado perverso é deixado para suposição. Talvez essa incômoda estratégia tenha sido executada para transportar o espectador para o momento em que os crimes estavam sendo anunciados, ou, até mesmo, para justificar a perspectiva de Liz. Para ela, não havia uma exposição sobre métodos e efeitos das mortes e todas as acusações, inicialmente, eram desprovidas de provas. Cabe mencionar, também, que Ted Bundy se tornou uma figura popular, a opção por não colocar os crimes em tela pode ser justificada por eles já existirem no imaginário coletivo.

Além disso, Ted Bundy se mostrou um ótimo advogado – embora ainda não tivesse concluído o curso de direito – ao dispensar representantes para sua defesa e assumir seu caso diante do júri. Seu charme e boa oratória convenceram mulheres de diversas idades e as convenceram de que aquele rostinho bonito não era capaz de cometer atrocidades, conforme ilustrado pela cena em que o juiz se vê obrigado a chamar a atenção da plateia presente em uma sessão, pois gritinhos de comemoração se faziam presentes toda vez que Bundy dizia algo bem articulado.

Um aspecto interessante da obra é perceber que, a todo momento, há um posicionamento da câmera contrário ao posicionamento do personagem. É possível, então, marcar a câmera como um narrador que acompanha os passos de Bundy e, por meio da direção, desmente a inocência do assassino. Enquanto ele nega fervorosamente seus crimes, o narrador está ali para induzir o espectador de que essas negações são mentiras. Esse embate de posicionamentos põe em ênfase a atuação de Efron, tanto para o lado positivo, quanto para o lado negativo. O ator se esforça e entrega – quando deve – um Ted Bundy charmoso e excêntrico. Sua articulação facial e gesticulação em momentos ambíguos, como é ilustrado através da câmera ao focar no contato entre a mão de Bundy no pescoço de Liz e narinas contraindo, confirmam a natureza assassina do personagem. Entretanto, nas cenas em que Efron precisa se provar, pelo menos para Liz, como um bom rapaz, a persona que o persegue desde sua adolescência em musicais da Disney se faz presente, o que quebra a imersão do espectador.

Outra menção necessária, ainda em relação às ênfases da direção, são os focos proporcionados no Volkswagen Fusca de Bundy. Retomando “Mindhunter”, o personagem Holden Ford (Jonathan Groff), mesmo sendo um personagem criado para a série, representa John E. Douglas, agente do FBI responsável pela investigação e elaboração de um manual que identifica serial killers, observa que o fusca, por ser um carro popular – barato e comum – é uma escolha apropriada para os assassinos em série por se camuflar em plena multidão. O uso prático do fusca é omitido em tela, o que justifica a dificuldade de Liz em reconhecer Bundy como um criminoso. Para ela, não para o espectador, Ted era extremamente convincente, tão convincente que, ao assumir a defesa de seu próprio julgamento, recebeu um grupo de fãs que clamavam amor por ele.

Em síntese, por ter os acontecimentos retratados, na maior parte da narrativa, sob o restrito campo de visão de Liz, “Ted Bundy: a Irresistível Face do Mal” deixa de exibir ações de Bundy que facilitariam para o espectador, sem conhecimento prévio sobre a história, o convencimento de sua inocência. Entretanto, tal omissão se faz pertinente ao sustentar a ambiguidade que se constitui entre a perspectiva de Liz e o anunciado pela mídia. Em um determinado momento, Bundy declara que há duas formas de fazer uma investigação, seguindo pistas e indícios até que o culpado seja encontrado ou encontrar um suspeito e projetar as provas nele. O personagem, evidentemente, defendeu que pertencia ao segundo grupo e conseguiu enganar muitas pessoas durante seu percurso nos tribunais, mas, eventualmente, Bundy não conseguiu convencer o júri, assim como Efron não conseguiu convencer inteiramente com sua atuação.

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