FRAGMENTO INQUIETO: REFLEXÕES SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Se relembrarmos as notícias que se destacaram nesta última semana, as mudanças que ocorrem na Agência Nacional de Cinema (ANCINE) — ou sua provável extinção — não causaram tanta comoção em uma boa parcela da população. Afinal, de todas as notícias que podem afetar nosso cotidiano, se preocupar com alterações na produção de audiovisual no Brasil é algo quase frívolo.

Entretanto, em nossa atual conjuntura, nada é o que aparenta ser; ou melhor: nada é somente o que aparenta ser. Se voltarmos às declarações do atual representante do país sobre a ANCINE, podemos constatar que a questão vai muito além de cinema. Apesar de não ser reconhecido pela coerência em sua fala, Bolsonaro chama a atenção a clareza de suas intenções quando ele afirma: “Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá […] Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir, em respeito às famílias” (fonte: O GLOBO). Mais: “A cultura vem para Brasília e vai ter um filtro, sim. Já que é um órgão federal, se não puder ter filtro, nós extinguiremos a ANCINE. Privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ser usado para fazer filme pornográfico” (fonte: EXAME).

O cinema brasileiro é conhecido mundialmente — e aqui não faço uso de hipérbole — por abordar temáticas sociais em seus enredos. A formação sócio-histórica do país é constantemente utilizada nas narrativas, seja como plano de fundo para fazer críticas à parcela mais abastada da população (“O Som Ao Redor”, 2012) ou quando o cenário salta a tela e torna-se ele mesmo o protagonista do roteiro (“Cidade de Deus, 2002). O cinema nacional, então, ganha uma inevitável carga política ao denunciar as injustiças sociais (“Pixote: A Lei do Mais Fraco”, 1981), o terrorismo de Estado (“Carandiru”, 2003) e sua truculência (“Tropa de Elite”, 2007) ou mesmo questionar instituições e seus métodos (“Bicho de Sete Cabeças”, 2000).

Ao que parece, o representante dessa nação costuma relacionar “ativismo” à pauta defendida pelo espectro político que faz oposição a ele. Logo, qualquer filme que expõe uma realidade social que contradiz o que ele defenda — como quando afirma que não existe fome no Brasil — é automaticamente um “filme de esquerda”, que não pode ser financiado com dinheiro público “em respeito às famílias” [sic].

Antes de seguir, é importante frisar: não existe ponto de vista neutro. Pode-se mostrar os dois lados de uma situação, ponderá-las, fazer questionamentos para ambos os lados; ainda assim, não existe a neutralidade pura e inexorável. Uma narrativa é o ponto de vista de seu autor — autor esse repleto de experiências, vivencias, preconceitos e princípios próprios — que fornece sua visão para abordar determinado assunto. Esse ponto de vista pode até nortear a pessoa que posteriormente assistirá à produção, mas, ao final dessa jornada, o próprio espectador adquire uma perspectiva nova (sobre o mesmo produto).

Não existe, portanto, neutralidade quando o atual mandatário do Brasil diz que recorrerá a um “filtro” para aprovar ou não um projeto. Ele mira nos “filmes ativistas/de esquerda” e qualquer produção que contradiga o seu ponto de vista. Há um cheiro de censura no ar.

O curioso é saber como exatamente esse “filtro” funcionará, haverá uma comissão formada por “especialista em cinema” no Planalto? O que será analisado? A estrutura do roteiro, os arcos dramáticos dos personagens, as soluções do roteirista para elaborar uma cena? Ou tudo será decidido a partir da leitura do argumento do filme? Os produtores serão convidados a apresentarem um pitching na presença do presidente ou partirá do gosto pessoal dele? Ele assiste a muitos filmes? Quais critérios utiliza para dizer se gostou ou não de determinada narrativa?

Mais emblemático é esse representante rotular o filme “Bruna Surfistinha” (2011) como “pornográfico”. É um momento crítico, o governo quer decidir o que é arte. Não importa que o filme retrate uma realidade, narre uma história real; a questão, nesse ponto, transpassa o cinema e se torna moral. O presidente tenta estabelecer condutas que sejam aceitas, qual postura é admissível e o que a população deve ou não assistir. Em sua visão, um filme sobre uma prostituta fere “os bons costumes” e busca influenciar, por meio de seu “ativismo”, tal prática. Isso não faz do presidente um déspota?

Quando, propositalmente, o mandatário da nação transforma a discussão sobre o financiamento público em um sermão moralizante, distorcendo a realidade, ele ignora que o audiovisual brasileiro já rendeu 25,5 bilhões de reais ao PIB brasileiro, gerando diversos empregos e crescimento econômico, tudo o que o país precisa no momento.

O cinema não deve servir quem o financia, ideologias ou o poder estabelecido, se tornando, assim, uma peça publicitária. O cinema deve estar a serviço do próprio cinema e de sua linguagem. Deve ser independente, não evitando ser produzido por grandes estúdios, mas independente de ideia. Não é uma arma para empoderar uma minoria, mas provoca os poderosos, provoca reflexões, inspirações. O cinema não substitui a luta ou se torna instrumento dela. Pode relatá-la, pode confrontá-la, pode contextualizá-la. Mas a História quem muda é o ser humano. O cinema se inspira na vida, não o contrário. Ele atinge as massas, atinge o cérebro. Eis o perigo.

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