FRAGMENTO INQUIETO: POR QUEM OS CLÁSSICOS DOBRAM

Pense em cinco filmes clássicos. A tarefa é fácil, mesmo para quem não é um cinéfilo. Nem é necessário ter assistido a um desses filmes para criar uma lista cheia de títulos aclamados, de épocas e gêneros distintos. Agora, tente explicar por que eles são considerados clássicos. Os motivos são igualmente diversos: todos conhecem, fizeram sucesso, são dirigidos por grandes diretores ou medidos pela quantidade de prêmios arrebatados.

Há quem cite o valor artístico do filme, sua narrativa, o culto gerado décadas depois de seu lançamento. A discussão se torna quase metafísica, subjetiva, citando aspectos difíceis de serem julgados. Outros responsabilizam o roteiro e, de fato, vários deles são objetos de análise, constando na lista dos melhores já escritos. Ainda assim, nem todo mundo considera “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942) a melhor história já contada no cinema — aposto que você tem uma opinião sobre ele ou, ao menos, compõe sua lista de Cinco Filmes Clássicos.

O objetivo deste texto não é fazer uma revisão dos filmes considerados clássicos ou questionar o porquê de determinada obra ter obtido esse “certificado”, tampouco buscar definir os aspectos necessários para se produzir um. O que quero saber é: como um filme se torna um clássico?

Para responder essa pergunta, vários fatores devem ser considerados. Por isso, analisar os êxitos de um filme individualmente pode não nos dar uma resposta tão ampla: levar em consideração seu contexto histórico é fundamental, eu diria. Um filme como “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976), por exemplo, não é um sucesso isolado. Numa época de efusão social e grandes transformações, como foi o fim da década de 1960 e o decorrer da década de 1970, nos Estados Unidos, o cinema deveria refletir a vida real, transgredir o padrão de narrativa semeado desde sua “Era de Ouro” na América do Norte e apostar na visão autoral de novos diretores, dando-lhes liberdade.

Assim, “Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Bala” (Arthur Penn, 1967), “Perdidos na Noite” (John Schlesinger, 1969) e “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Coppola, 1972) não só nasceram no mesmo período, como são expoentes de um movimento que deu novo fôlego à sétima arte quando a TV tornava-se mais popular que a tela grande: era a Nova Hollywood surfando na esteira do Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa.

O contexto, porém, deve-se alinhar ao distanciamento. Explicar um movimento em pleno andamento pode ser menos eficaz do que compreender todo o período que ele é composto. Nesse primeiro momento, portanto, pode-se afirmar que o tempo é quem define o que será ou não um clássico; não pelos anos que se passaram desde seu lançamento, mas pela relevância que o filme preserva: o famoso “envelhecer bem”.

Também não devemos abrir mão do contexto quando analisamos uma obra produzida há décadas. É injusto julgar um filme pela ótica e pelos valores da época em que o discutimos, tirando-o de seu espaço e tempo. O “O Nascimento de uma Nação” (D.W. Griffith, 1915) jamais será exemplo de como retratar os negros e sua visão sobre a Ku Klux Klan é, no mínimo, equivocada, mas — e já dei motivos suficientes para ele ser excluído do rol de clássicos — seu valor estético e, principalmente, histórico nos ajuda a compreender o papel assumido pelo cinema em determinados períodos, seja ao influenciar a ascensão da “KKK” ou servindo para disseminar a ideologia nazista.

A mídia desempenha um papel determinante na criação dos clássicos. Revistas como a Cahiers du cinéma, na França, defendiam um cinema menos comercial e mais autoral, renegando os épicos americanos que chegavam ao país nos anos de 1950. A Cahiers cobrava dos diretores franceses um estilo próprio em seus filmes, mas, também, tecia críticas incisivas a “filmes enlatados” — enquanto, ironicamente, definia a estética da Nouvelle Vague — e defesas apaixonadas ao ser perceptível a “mão do autor” em uma filmagem.

Atualmente, se já não existe a personalização de um crítico que define o que tem ou não qualidade, sites como Rotten Tomatoes compilam inúmeras resenhas e as sintetizam em uma porcentagem que define o “valor” da produção. Não falta rejeição aos critérios de avaliação, principalmente por parte dos estúdios, que alegam que “um tomate podre” pode influenciar a percepção do público.

Por outro lado, um clássico se forja no imaginário coletivo por meio da cultura pop. Séries como “The Simpsons”, “Uma Família da Pesada”, “Stranger Things” ou “Saturday Night Live” (para citar as que ainda estão sendo transmitidas) fazem diversas referências a filmes em forma de piada, possibilitando que a atual geração busque por esses títulos e alimente essa soberania.

Por último, um filme se torna um clássico, principalmente, pela influência que ele exercerá sobre outros filmes, movimentos, diretores ou roteiristas. Um filme inesquecível não está, necessariamente, na vanguarda, mas o seu primor técnico e sua mensagem transpassam seu lançamento, refletidos no trabalho de nossos diretores e diretoras favoritos décadas mais tarde.

Mesmo com todos os fatores citados aqui — e tantos outros que foram ignorados pelas minhas limitações —, se o filme não tivesse uma força própria que impulsionasse sua longevidade, a arte (e o tempo) podaria seu alcance; do mesmo modo, filmes que não foram reconhecidos anteriormente foram ou serão retratados seguindo essa lógica de autossuficiência.

Os clássicos, todavia, não são intocáveis. Devem receber críticas do mesmo modo que se reconhece suas qualidades. Com essa discussão, afinal, continuaremos falando deles.

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