CRÍTICA: “GUAVA ISLAND” (2019) – A TRAGÉDIA ALEGÓRICA DE CHILDISH GAMBINO

Que Donald Glover é um dos artistas mais completos da nossa época não resta dúvida. Depois de ter se mostrado um grande talento como roteirista em “30 Rock” (2006-2013), como comediante stand-up e como ator na série “Community” (2009-2015), Glover se tornou o protagonista e showrunner de uma das séries de maior sucesso da atualidade, “Atlanta” (2016 – hoje). Além disso, usando o nome de Childish Gambino, o ator faz bastante sucesso também na música pop contemporânea. Agora, em 2019, Glover, mais uma vez, pôs sua criatividade impecável para trabalhar ao trazer “Guava Island”, um filme curto (55 minutos), mas com muito a dizer.

Há muitos anos, a ilha paradisíaca Guava perdeu sua magia ao ser consumida pela ganância dos homens. Nos dias atuais, Deni Maroon (Glover) tenta ganhar a vida se dividindo entre o trabalho de cantor e um empregado do monopólio de Red Cargo (Nonso Anozie), que controla toda a ilha. Além disso, ele pretende escrever uma canção tão bonita quanto sua namorada Kofi Novia (Rihanna), que trabalha como costureira. Os problemas começam quando Deni tenta fazer um festival de música mesmo contra a vontade Red. O roteiro se inicia de forma bastante confabular e ganha contornos mais realistas em seu desenvolvimento. Stephen Glover, roteirista, consegue trazer nos diálogos algo de esperançoso nos personagens, mesmo em meio a toda repressão na qual vivem. É possível vê-los alegres e exaltando elementos de sua cultura a todo tempo, algo que conversa bastante com a parte visual do filme.

Guava Island.jpgA escolha do local das gravações não poderia ter sido mais precisa: Cuba. A ilha caribenha rodeada de belezas e problemas políticos complexos. O visual das cidades, com casas simples que lembram favelas e alguns pontos industriais, casa com o colorido apresentado nas vestimentas da população e nos acabamentos das construções, assim como com as paisagens litorâneas e tropicais. Esse visual, parte anacrônico e parte dicotômico, é complementado pela escolha da filmagem em película ao invés do formato digital. Tudo isso cria o clima perfeito para entrar nos pontos principais da história. É possível perceber vários elementos característicos, tanto na música, quanto nos cenários, da cultura afro-latino-americana, o que traz uma ideia muito forte de apego a raízes ainda que haja uma força destrutiva contrária a esses elementos. Tudo isso funciona, não só como uma crítica obvia ao capitalismo, mas também aos sistemas ditatoriais bastante presentes nos países da América Latina (Cuba incluso), além de levar em conta a relação abusiva que existe em relação ao trabalho, principalmente aos braçais voltados para as pessoas de baixa renda e, em sua maioria, negras e periféricas.

Tudo isso é potencializado pelos números musicais, todos eles compostos e interpretados por Childish Gambino. “This Is America” é, sem dúvida, a música mais chamativa do filme, e sua apresentação acontece quando um dos personagens diz que quer ir para os EUA, pois lá seria um lugar melhor que Guava. Deni usa essa música para ironizar o rapaz, dando a entender que não faria diferença alguma, pois mesmo no país norte-americano, ele continuaria sendo um escravo do sistema predatório que vive. Estes elementos são conduzidos brilhantemente por Hiro Murai, um consagrado diretor de videoclipes, inclusive dirigindo o referente a música supracitada, e que transicionou para o drama como muito sucesso em “Atalanta”. Com uma direção bastante crua e simplista, e uma atenção especial na condução dos musicais conversando com o momento em que a trama se encontra, Murai se torna, praticamente, um maestro que conduz toda essa mistura de elementos e alegorias em uma grande orquestra afinada. Além disso, ele conduz excelentemente o elenco, que não só conta com Glover e Rihanna, como conta com belas atuações de Anozie como o vilão da história, e o apoio de Letitia Wright, como a amiga e conselheira de Kofi.

Com uma história bem contada, cheia de discussões relevantes, ótimos números musicais e um visual exuberante, trata-se sem dúvida é mais um acerto vindo a mente genial de Donald Glover, que ainda conta com parceiros igualmente talentosos para a realização de seus projetos. Disponível na plataforma Prime Video da Amazon, “Guava Island” é uma obra artística completa que merece ser apreciada e discutida em suas várias instâncias e temáticas.

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