CRÍTICA: “NÓS” (2019) – O MEDO E O RISO NA CONSTRUÇÃO ALEGÓRICA

Jordan Peele, roteirista, diretor e produtor de “Nós”, tem um histórico irrefutável como roteirista de comédia e teve sua estreia memorável no terror com o filme “Corra”, se tornando o primeiro homem negro da história dos indicados ao Oscar a conseguir o prêmio de melhor roteiro original. Se em “Corra” Peele focou em escancarar a sociedade racista, em “Nós” ele coloca em jogo inúmeras críticas à sociedade por meio de muitas referências aterrorizantes e sem abandonar o riso.

O filme conta a história de Adelaide (Lupita Nyong’o), que, contra a sua vontade, vai passar férias com a família em um lugar onde teve uma experiência traumática na infância. Ela, o marido Gabe (Winston Duke) e os dois filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), se encontram na praia com os Tylers, uma família amiga que também estava viajando a passeio. No final do dia, após retornarem à casa, recebem a visita misteriosa de pessoas fisicamente idênticas aos quatro membros da família.

UsA partir do momento em que os clones são apresentados – chamarei de clones porque sabemos que foram criados por uma pessoa. Mas também podem ser vistos como a representação de um doppelganger, que é uma versão idêntica das pessoas e que coexiste, no mesmo universo ou não, com a versão “original”. Além do desespero, uma curiosidade é colocada em cena: descobrir de onde os clones vieram.

Ao descobrirmos o lugar em que os clones viviam, podemos fazer uma alusão ao mundo de Alice no País das Maravilhas. Todavia, se para Alice o mundo subterrâneo é de maravilhas, em “Nós” o mundo é dos horrores. Para confrontar sua doppelganger e, assim, descobrir a verdade por trás do ataque sofrido, Adelaide precisa ir ao subterrâneo. O destino final e específico da personagem é uma sala de aula, afinal, qual é o lugar em que mais se pode ter conhecimento sobre o outro e sobre o mundo? Nesse sentido, é preciso dizer que há mais de uma significação para a sala de aula.

A sala de aula pode simbolizar o primeiro passo para descobertas e novos conhecimentos. Além disso, existe um conceito antigo no qual o “saber” é posto como algo propício ao sofrimento, mas, ao mesmo tempo, instiga uma busca cada vez maior pelo conhecimento.

Quando Peele traz um roteiro em que no seu clímax a verdade apavorante está dentro da sala de aula, e, por mais assustadora que seja, é necessária, pois, para a personagem, há uma quebra – literal e metaforicamente – de uma corrente. Essa corrente, no plano do literal, representa a quebra de um objeto físico que a mantinha presa e, no âmbito do metafórico, representa a quebra de conceitos que faz a personagem ampliar sua visão ao sair de uma determinada bolha social.

Nessa perspectiva, é quase impossível não relacionar uma crítica a alguns discursos que circulam atualmente. Por exemplo, a importância de conhecer a verdade a respeito de outras “sociedades” e, a partir daí, reconhecer os privilégios que nos cercam. Ao sair da bolha e irmos com a protagonista para conhecer o outro, percebemos que Red, a outra versão de Adelaide, não teve as mesmas oportunidades que ela, o que a fez agir em prol da destruição da sociedade que teve privilégios, impossibilitando a convivência entre pessoas que tiveram vidas diferentes.

A partir dessa quebra, é importante analisar o elemento que a possibilita – ao menos a parte literal – a tesoura, que é usada por duas pessoas supostamente iguais, mas com vidas extremamente diferentes. A tesoura é um símbolo de dualidade, pois possui dois lados iguais e que juntos podem causar dor. É brilhante perceber que a mesma arma que foi usada para tirar vidas é usada para quebrar a corrente que prendia Adelaide, reforçando o conceito de dualidade. Diante disso, é inevitável deixar de pensar que, caso agissem juntas, Red e Adelaide poderiam destruir quem criou Red e a deixou viver nas condições em que ela e os doppelganger viveram.

Depois de tantas alusões a outros mundos e simbologias, como a tesoura e a sala de aula, é louvável o que Peele construiu em seu filme: uma obra repleta de terror, mas que ainda consegue trazer o riso. E é por meio do riso que, mesmo de forma desesperadora, Gabe, o marido de Adelaide, faz piadas mostrando que o roteirista sabe o momento ideal de quebrar a tensão para depois intensificá-la. É nesse clima apavorante e tenso que “Nós” nos mostra como um genial roteirista consegue transitar entre gêneros sem perder a essência da sua obra nos guiando diante da verdade que cerca a nossa sociedade.

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