CRÍTICA: “MIDSOMMAR” (2019) – O MARAVILHOSO CONTO DE HORROR

Este texto contém spoilers (mas o importante é a jornada, não o destino).

A discussão sobre gênero pode ser muito rica no cinema e na literatura. Quando um autor consegue imprimir elementos de diferentes gêneros narrativos na sua história para criar algo original que faça sentido dentro dos limites interpretativos, o resultado será sempre ambicioso no melhor sentido da palavra. “Midsommar” é um filme extremamente ambicioso nesse sentido. Se decepcionarão aqueles que forem aos cinemas aguardando uma construção convencional, contendo personagens arquétipos com apenas uma única função em meio a uma narrativa formulaica na qual os acontecimentos seguem o esperado do público, gerando algum conforto. Não há conforto algum. Ari Aster enreda seu terror desconfortante com elementos do conto maravilhoso, surgindo, assim, como o terceiro irmão Grimm, de alguma forma (fantástica) perdido na contemporaneidade.

A estrutura de “Midsommar” segue a mesma de um conto maravilhoso, ou conto de fadas, desconstruído e misturado com elementos do horror, do drama e do estudo de personagens. A primeira cena, na qual se abre uma cortina colorida, como no início de uma peça infantil, apresenta brilhantemente esse conflito de gêneros devido aos planos gerais que se seguem. Esses planos mostram uma forte nevasca enquanto o início dos contos maravilhosos convencionais é marcado pelo sol. Pensando na simbologia das estações, muito referenciada na obra de Aster, a primavera é a inocência, o início do ciclo da vida, o verão é a fase adulta, o outono a velhice e o inverno a morte, fechando o ciclo. Ao iniciar o filme com uma nevasca, Aster aponta o final de um ciclo, que é marcado pela sequência que abre o longa, da morte dos pais de Dani (Pugh), e o começo de um novo, a primavera.

midsommarToda a narrativa se baseia, então, no renascimento da personagem protagonista, que sofre um grande trauma e precisa superá-lo. É, principalmente (mas não unicamente), a partir dela que o filme levanta diversas discussões temáticas, como a depressão, a natureza cíclica da vida, o luto, o conceito de família, a cultura, e os relacionamentos amorosos. Qualquer um desses temas é passível de páginas e páginas de análise, uma vez que a discussão é tecida de forma simbólica e aberta, privilegiando as diferentes interpretações e perspectivas do público. Essas discussões, ainda, não são rasas ou aparecerem na superfície do filme, elas estão entranhadas em todo o subtexto, exigindo uma atitude ativa do espectador que precisa preencher as lacunas com sua bagagem interpretativa. Todavia, o filme não é (completamente) hermético ou ininteligível, pois o arco principal, que habita a superfície do texto fílmico, segue uma construção convencional, que acompanha uma protagonista em um ambiente desconhecido. Desse modo, as leituras podem ser inúmeras. Podem ou enfatizar a estrutura superficial da narrativa ou os temas profundos escondidos no subtexto.

O arco dramático de Dani, que começa no inverno, segue o conceito cíclico da existência humana abordada por Aster. A primeira sequência, a morte dos pais, se configura como um epílogo que justificará a trajetória dessa personagem. Assim, passado esse epílogo, os três atos da narrativa terão como plano de fundo a primavera, que será o novo começo para Dani. Sua trajetória, então começará em seu país de origem e terminará na Suécia, mudando o espaço da narrativa para uma comunidade pautada em um culto à natureza e ao sol, que possui práticas culturais pouco convencionais. O arco da protagonista passará por dentro dessa cultura com a finalidade de mudar sua perspectiva de como se dão as relações humanas e seus valores culturais.

O elenco de apoio, igualmente interessante, é responsável por trazer outras discussões passíveis de extensas análises que, definitivamente, serão feitas por muitos. Temas como plágio, amizade, traição, diferenças culturais, símbolos de fé, religião/culto, sexo etc, que compõe e permitem diversas leituras e análises. Além disso, cada personagem tem um papel fundamental no avançar da narrativa, não sendo descartáveis ou colocados ali apenas para justificar uma cena de morte violenta. Cenas essas que estão presentes durante toda a projeção e que impressionam devido maneira naturalista, quase banal, com que surgem. São méritos da direção de Aster, também, a forma como a violência é retratada. Para reforçar a banalidade com que a violência é enxergada por essa comunidade, o diretor a filma de maneira igualmente banal e desglamurizada, causando um sentimento de asco até mesmo nos espectadores de estômago mais forte.

Ainda sobre a direção, é de suma importância ressaltar a característica estrutural mais marcante do filme: as elipses, ou seja, os saltos temporais que separam cenas ou sequências. O longa-metragem é repleto dessa técnica, usada, aqui, para ampliar o impacto de algum acontecimento o contrastando com a reação de alguma personagem ou outro acontecimento decorrente. Outra finalidade é para desorientar o espectador para refletir a desorientação de Dani. Um exemplo que ilustra esse segundo uso é a transição de quando Dani tem uma crise na casa de um dos amigos de seu namorado e precisa ir ao banheiro. A câmera a segue retratando-a de cima, assim que ela, aos prantos, entra no banheiro, o eixo da imagem vira 90º e ela está no banheiro do avião depois de outra crise, mostrando, além da desorientação espacial e psicológica, a intensidade e repetição dessas crises, que serão exploradas durante boa parte do primeiro e segundo ato. A desorientação espacial e psicológica é ainda amplificada pelo constante uso de substância alucinógenas que fazem as personagens. A direção, nesses casos, também potencializa o efeito das drogas com toques oníricos no estilo, como na cena em que Dani é coroada a rainha da primavera depois de tomar um líquido desconhecido que a faz alucinar. Sua coroa de flores, assim como toda a natureza a sua volta, torna-se viva, realizando sutis movimentos de expansão e contração para enfatizar o estado psicológica da protagonista e personificar o espaço, dando dimensões simbólicas e de deidade à natureza.

“Midsommar” não é um filme comum. É provocante, incômodo e perturbador. Mas não é perfeito, algumas cenas se alongam um pouco mais do que deveriam para justificar os 147 minutos de duração. Entretanto, as extensas cenas contribuem para um caráter contemplativo, o que dialoga perfeitamente com os temas propostos. Sendo assim, a duração não é, necessariamente, um problema do filme. Talvez seja um problema de uma geração com pouca concentração e incapaz de aceitar um ritmo mais lento e cadenciado. Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky seriam taxados de inconvenientes hoje em dia. Mas, ainda assim, o tempo é sentido e, em alguns raros momentos, algumas ocorrências parecem redundantes. No entanto, isso não tira o mérito da obra de forma alguma. Obra essa que, devido à tamanha perturbação e perversidade, poderia muito bem ser adaptada (de forma family friendly) pela Disney daqui a algumas décadas. Jacob e Wilhelm ficariam orgulhosos.

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