CRÍTICA: “VELVET BUZZSAW” (2019) – O NASCIMENTO DE UM AUTOR

Independente da qualidade, é trágico quando um filme não encontra seu público. É trágico, mas pode ser também promissor. Alguns filmes, pela abordagem estrutural ou pela forma como têm sua história conduzida, podem causar uma grande estranheza por parte do público devido ao nível de transgressão. E aqui há sempre dois caminhos: a transgressão pela transgressão cujo destino é lugar nenhum, ou a transgressão motivada por algum fator. O destino da segunda opção é um lugar muito mais atraente.

“Velvet Buzzsaw”, lançado pela Netflix, marca a segunda parceria do diretor Dan Gilroy com o ator Jake Gyllenhaal, sendo a primeira no excelente “O Abutre”, de 2014, que rendeu uma das mais memoráveis atuações da premiada carreira de Gyllenhaal. Se no primeiro encontro os dois construíram uma ferrenha crítica ao jornalismo sensacionalista, no segundo o alvo é a indústria da arte moderna e toda a prepotência que cerca esse meio.

Velvet BuzzsawO filme narra o desenrolar de acontecimentos provenientes da descoberta de quadros de um artista após sua morte. Junto às centenas de quadros, há um aviso para que eles não sejam comercializados ou exibidos. Claro, o aviso é ignorado e exatamente o oposto é feito por agentes gananciosos e prepotentes. Entretanto, a história literal contada na superfície não é o mais importante aqui, e sim a alegoria no subtexto que retoma um debate antigo sobre arte. Para construir essa alegoria e, por consequência, sua crítica, Gilroy usa de meios pouco convencionais.

A forma com que o diretor escolhe tecer suas críticas é por meio dos gêneros, e é nesse ponto que, talvez, esteja o motivo maior da estranheza causada por “Velvet Buzzsaw”. O filme é uma mistura de comédia satírica com o terror mais convencional da Bloomhouse, também de diálogos exageradamente ridículos com o horror gráfico e, até mesmo, do deboche com o absurdo. Há sempre uma relação dialógica do horror com a comédia e isso é realizado com maestria pelos envolvidos na produção.

Há diversas cenas ao longo do filme em que são realizadas quebras de expectativa. Elas funcionam de acordo com a regra de qualquer cena que envolve conflito de personagens, ação e reação, ou seja, uma ação é realizada e, como resposta, alguém reage. O diferencial de “Velvet Buzzsaw” está nas reações, pois elas quase nunca coincidem com a expectativa do público e, assim, concretizam a quebra de expectativa. As personagens falam de forma estranha, agem de forma estranha e reagem de forma estranha. É como se houvesse um esforço por parte delas para se fazerem diferentes, peculiares, por isso as reações são tão atípicas.

Bons exemplos são as reações às mortes de outras personagens. Com exceção de Coco (Natalia Dyer), e voltaremos a ela, a percepção da morte é sempre, em um primeiro momento, percebida em forma de espetáculo, como se fosse parte de uma performance artística. Esse é um sutil comentário do diretor sobre a espetacularização da arte que glamouriza a morte, que capitaliza justamente em cima do escatológico e do visceral. O comentário também parece válido para as diferentes mídias que fazem uso dessa mesma ferramenta para vender. Além disso, pode ser entendido como uma leve cutucada ao público desse tipo de performance que, na visão exposta no longa, possui um certo grau de alienação no modo de julgar a arte. Aqui, levantam-se as perguntas que se fazem presentes em todo o filme: “o que é arte?” e “como se configuram as diferentes relações entre arte e sujeito?”

Para inserir algumas exclamações na discussão, há um forte contraste de tom das cenas de morte com as demais do filme. Enquanto nas cenas de diálogos há um tom satírico e debochado, nas de assassinato a abordagem é convencional, seguindo o manual do terror à risca. Portanto, há uma ruptura com o léxico cinematográfico definido no primeiro ato, o que causa uma forte estranheza, motivo de muitas críticas negativas. Entretanto, essa ruptura, justamente nessas cenas de gênero, enfatiza a mensagem do autor. As cenas de “terror convencional” não estão ali para assustar ou causar espanto, mas, sim, para comporem a visão de mundo, ou de arte, do realizador.

Isso merece aplausos, pois, como colocado anteriormente, esse é o segundo filme de Dan Gilroy em que ele critica um conceito sensacionalista, antes do jornalismo e agora da arte, o que o coloca no caminho para atingir um patamar de autor segundo os pensamentos de François Truffaut em seu texto “Uma certa tendência no cinema francês”, publicado em 1954 na revista Cahiers du Cinéma. Gilory não apenas aponta a câmera e registra diálogos e imagens, ele imprime sua própria subjetividade em seus filmes, sua ideia de mundo e seus valores, o que o torna um homem de cinema, para citar um termo cunhado por Truffaut. Gostando ou não da abordagem de seus filmes, o que está em questão aqui é um criador que tem algo a dizer e sabe dizer por meio do cinema, pois domina o discurso cinematográfico. Para subverter modelos, é preciso, antes, entendê-los. Gilroy entende e subverte e, por isso, incomoda.

A respeito das personagens, há duas em Velvet Buzzsaw que, durante a narração, estão à margem do main stream do mundo das artes, são elas Damrish (Diggs) e Piers (Malcovich). Damrish é um grafiteiro que foi descoberto por uma agente exploradora e prepotente e Piers é alguém que possui um entendimento aprofundado da indústria de arte contemporânea e, por isso, opõe-se a ela. Juntos aos dois, Coco completaria o trio de personagens lúcidas e com algum valor moral em meio ao vasto mar de cretinice que pintam as demais personagens. Coco se difere ligeiramente de Damrish e Piers, pois ela não é uma artista. Ela tem a responsabilidade narrativa de estabelecer o quão surreal e absurda é essa indústria, por isso, ela é a única personagem que reage de acordo com o que é, no ocidente, socialmente esperado, coincidindo com as expectativas do público.

Já Damrish e Piers representam a parcela artística que transgride as expectativas da indústria contemporânea e enxergam por trás da espessa parede de bullshit característica desse meio. Por isso, o desfecho dessas personagens possui uma conotação positiva, ao contrário do desfecho daquelas que seguem a fio o que dito pela indústria. O recado, aqui, é que a morte pode ser letal para aqueles que julgam a exploram para fins lucrativos e dominador.

O filme se encerra com uma cena muito significativa: Piers produz sua obra-prima nas areias de uma praia enquanto a maré, vagarosamente, sobe, sugerindo o iminente apagamento dessa obra. Essa cena apresenta com maestria uma debochada transgressão do que é a arte e qual é sua função social. Piers, ao fazer isso, nega o capital gerado pela sua produção artística e também nega o público, entendendo a arte como processo e fim individualista. É uma resposta para as perguntas levantadas, mas não é a resposta. É, sequer, a resposta do filme ou do diretor, é apenas o levantamento de uma discussão sem resposta definitiva e que ganha mais gás com a obra de Gilroy.

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