FRAGMENTO INQUIETO: HOLLYWOOD PARA MENORES

Você se lembra qual foi a última vez que chorou assistindo à um dramalhão no cinema? E qual foi última cena de sexo que você viu em detalhes na tela grande, consegue dizer? Provavelmente ou isso aconteceu nas décadas passadas ou você não assistiu às grandes bilheterias dos últimos anos. Acontece que os filmes de temáticas adultas foram praticamente abolidos de Hollywood nesta década. Repleta de franquias, animações e ficções científicas, o cinema mainstream da década de 2010 moldou-se ao seu público; um público escapista e, até mesmo, casto.

Gêneros fluídos

A falta de variedade nas temáticas dos grandes lançamentos pode ser considerada um fenômeno recente. Se olharmos para a década de 1990 — pouco mais de vinte anos —, o circuito apresentava gêneros para todos os gostos. Entre os títulos produzidos à época, podíamos encontrar comédias, dramas históricos, romance e tantos outros.

Na nuvem de palavras abaixo, foi compilado os gêneros das dez maiores bilheterias de cada ano da década de 1990. Quanto maior a palavra, mais filmes do gênero fora destaque no período:Gêneros década de 1990.png

Fonte – para gênero dos filmes: Internet Movie Database (IMDB); para dados de bilheteria: Box Office Mojo.

São, no total, dezesseis gêneros que predominaram, uma interessante diversidade de temas. Ainda mais importante do que isso, é a maneira que tais filmes foram contados e para quem foram contados. No gráfico abaixo, pode-se ver a classificação etária das cem maiores bilheterias da década por ano de lançamento. Repare como filmes indicados para maiores de 14 anos se sobressaem:gráfico 90.jpg

Fonte: Para classificação etária: Internet Movie Database (IMDB); para bilheteria e seus respectivos anos: Box Office Mojo.

Também é importante frisar que nem sempre a classificação etária faz jus ao público que ela quer alcançar. No período, foram produzidos “Missão: Impossível” (1996) e “Toy Story” (1995), ambos com classificação livre, mas público completamente diferente.

Ainda assim, há um contraste quando comparamos esses dados com os de 20 anos depois. Se trouxermos os gêneros das maiores bilheterias da década de 2010, eles serão apresentados desta forma:Gênero década de 2010 - definitivo.png

Fonte: para gênero dos filmes: Internet Movie Database (IMDB); para dados de bilheteria: Box Office Mojo.

Há uma diminuição de gêneros (13), além do predomínio de três deles: animação, aventura e ficção científica. Filmes dramáticos e suspenses tiveram uma considerável perca de preferência do público e no rol dos filmes mais comerciais não há romance. Outro ponto importante a destacar é que um filme, geralmente, pode ser considerado como sendo de mais de um gênero. Filmes da Marvel, por exemplo, são creditados no IMDB como ação, aventura e sci-fi, mas, não raramente, alguns títulos recebem a denominação de comédia.

Isso pode ocasionar uma problemática ainda maior: quantos desses filmes de grande bilheteria estão fora do universo dos super-heróis? Em 2018, cinco dos dez filmes mais vistos são da Marvel ou DC, todos voltados a um público diversificado e, por vezes, familiar, o que ocasiona o seguinte panorama no que se refere à classificação indicativa:gráfico 2010.jpg

Fonte: Para classificação etária: Internet Movie Database (IMDB); para bilheteria e seus respectivos anos: Box Office Mojo.

Uma diminuição de filmes para maiores de 14 anos; uma acentuada presença de filmes para maiores de 12 e a presença significativa de produções para crianças a partir dos dez anos — além da estabilidade de filmes com classificação livre.

O maior exemplo de uma Hollywood mais “puritana”, porém, vem no aumento das produções em animação. Contando não só com incríveis avanços tecnológicas para seu desenvolvimento, considera-se também o foco numa programação mais familiar que estúdios como a Disney/Pixar se voltam. Estratégica que tem dado certo: em 2010, cinco animações estiveram no top 10 de bilheteria.

 Abstinência no divã

O cinema é reflexo do seu meio e Hollywood é perita em encontrar fórmulas que serão consumidas em massa pelo seu público repetidamente. Desse modo, se algum assunto é sensível para parte dos cinéfilos, ganha a maioria — e assim o sexo vai se tornando mais escasso nas salas de cinema, por exemplo.

Uma reportagem do jornal El País debatia o que seria uma “infantilização” dos filmes hollywoodianos, devido à falta de cenas mais apimentadas em produções recentes. Após um ápice de dramas eróticos nos anos 80 e 90 — com títulos como “Atração Fatal”, “Instinto Selvagem” e “Nove e Meia Semanas de Amor” — seguiu-se uma “seca” que atingiu seu ponto alto nessa década, o que parecia resultado do movimento feminista #MeToo, algo que foi rechaçado pelo produtor espanhol Enrique López-Lavigne: “É uma política comercial voltada para a exploração da família como a principal unidade de consumo. Em nível temático e formal, isso é o que mudou […] Não acho que seja uma consequência direta do #MeToo, que nasce como um movimento pela igualdade de direitos e para encurralar os abusadores, e cujas consequências em Hollywood têm sido basicamente de limpeza”.

Por outro lado, a falta de libido nas telas demonstra o desinteresse da “Geração Smartphone” — pessoas nascidas a partir do ano de 1995 — pelo tema, segundo reportagem da BBC News Brasil de 2017. Destacando um estudo a respeito, o periódico diz que esses jovens consomem menos álcool — reflexo de sua pouca socialização em festas ou baladas —, fazem menos sexos e sentem-se menos preparados para a vida adulta. Por outro lado, dedicam cada vez mais tempo para seus celulares e o desenvolvimento de um jovem de 18 anos assemelha-se a de um adolescente de quinze das gerações anteriores.

A questão, tampouco, parece ser apenas geracional. No Japão, 42% dos homens com menos de 35 anos são virgens, segundo levantamento de 2016. Para o produtor espanhol: “O cinema é um reflexo da sociedade. Nos anos 70, o sexo era revolucionário e agora vivemos em uma época, quer seja conservadora ou puritana, até certo ponto confrontada com contradições que destilam hipocrisia. Consumimos pornografia grátis amadora e banimos da tela o sexo para o público”.

No Brasil, o assunto pode realmente pender para o viés hipócrita se considerarmos os verdadeiros consumidores do cinema. Com ingressos na faixa dos R$ 30,00 reais, entende-se que ir ao cinema não é um programa que os menos afortunados fazem todo semana. Dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual mostram que existem no país 3.347 salas presentes em apenas 416 municípios dos 5.570 que compõem os estados brasileiros (totalizando um alcance de 7,4% dos municípios). Só no Sudeste, o maior PIB entre as regiões, há 1.761 salas, sendo 1.018 nas “cidades grandes” — municípios com mais de 500 mil habitantes.

Resumindo: é um programa de elite, que tende a ser “conservadora nos costumes”. E, se elegemos o congresso mais conservador desde a redemocratização, e temos como presidente um homem que considera o filme “Bruna Surfistinha” pornográfico, podemos colocar uma boa parte da responsabilidade no colo dos mais abastados da nação — e a outra parte no “voto religioso”.

 Nudez frontal total

Ainda há como encontrar vida fora do eixo Marvel-Disney. Martin Scorsese, Christopher Nolan — além de serem inimigos públicos das franquias de heróis — ou Quentin Tarantino produzem, há décadas, narrativas originais que fogem do lugar comum das grandes bilheterias. No cenário mais independente, diversos festivais trazem ar fresco e novos nomes que chegam para o público com força no circuito comercial ou via streaming. Mas é na TV que atores e atrizes consagrados despem as capas e uniformes e contam histórias outrora comum nos cinemas. Com liberdade criativa, as séries debatem tabus, a violência é gráfica e viramos voyeur das relações mais quentes ou sódicas. Tudo fica entre quatro parede.

 

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