CRÍTICA: “THE BOYS” (2019 –) (S01) DESVIRTUANDO O ARQUÉTIPO DO SUPER HERÓI

A primeira obra literária da história foi a “Epopeia de Gilgamesh”, um poema épico, cravado em placas de argila há mais ou menos cinco mil anos, sobre as aventuras de herói mitológico sumério. Desde então, inúmeras narrativas contavam com o arquétipo heroico de seu protagonista. Um ser humano que não só tinha habilidades físicas mais aguçadas que a de uma pessoa comum, mas, também, tinha índole moral superior aos seus conterrâneos. Hoje em dia, esse mito foi atualizado nos super-heróis dos quadrinhos, que logo foram para o audiovisual. Mas o que acontece quando imaginamos esses personagens somente com os superpoderes e retiramos toda a parte ética e moral?

Adaptado da HQ de mesmo nome de Garth Ennis, “The Boys” se passa justamente em um universo onde existem pessoas superpoderosas, mas não necessariamente “superéticos”. Os super-heróis dessa realidade são controlados por uma empresa chamada Vought, que se preocupa mais com o marketing do que com salvar pessoas. Nesse contexto, conhecemos Hugh Campbell, um vendedor de eletrônicos comum que estava se preparando para dar o próximo passo na sua vida com sua namorada Robin, quando esta acaba sendo acidentalmente morta por A-Train, um super-herói velocista, membro do The Seven (grupo de heróis da Vought semelhante a Liga da Justiça). Hugh, então, cruza o caminho com Billy Butcher, um ex-agente da CIA que lhe oferece a chance de dar o troco pelo ocorrido.

theboysApesar de algumas mudanças, o desenvolvedor da série Eric Kripke, com ajuda de Evan Goldberg e Seth Rogen, adapta muito bem o espírito do quadrinho de Ennis: a ideia de demover dos superpoderosos o aspecto da superioridade moral que os torna heróis. Não é à toa que os membros do The Seven são claramente contrapartes dos membros da Liga da Justiça. Qualquer semelhança entre Homelander e Superman, Queen Maeve e Mulher Maravilha, Black Noir e Batman não é mera coincidência, só para citar o exemplo. O ponto principal é mostrar como o poder corrompe, a partir do momento que esses super-humanos se veem como intocáveis e indestrutíveis, tal qual milionários famosos, eles se tornam suscetíveis a cometer quaisquer atrocidades sem medo das consequências. Não há o bem e o mal maniqueísta aqui, somente uma moralidade cinzenta, subvertida e fluida.

É interessante notar como a narrativa flui. Apesar da subversão do arquétipo heroico, já que nem mesmo o grupo de Hugh e Billy, chamado The Boys, criado para derrotar os super é totalmente “bonzinho”, a história segue elementos clássicos de uma jornada do herói tradicional. Isso torna a narração algo muito fácil de ser reconhecido e assimilado pelo público. No entanto, como a ideia é desvirtuar (no sentido mais puro da palavra: “retirar virtudes”) a tradicionalidade dos quadrinhos, o enredo nunca cai em lugares comuns ou previsíveis. Uma vez que você sabe que o Homelander, diferente do Superman, não vai pensar duas vezes antes de partir uma pessoa no meio usando seu laser nos olhos, a tensão dos embates entre The Boys e The Seven se torna muito maior. Há também certa complexidade ao desenvolver o background dos personagens de ambos os lados, dando a eles aspectos mais realistas, humanizados e voltados para o mundo contemporâneo. Por esse motivo, vemos diversas vezes os arcos de desenvolvimento feitos em cima de dilemas éticos, o que torna tudo ainda mais imprevisível, mas também relacionável.

É bom observar, além do mencionado, como a sociedade em volta reage a esses super-seres. Eles são como celebridades e são vistos pela população comum tal qual, na vida real, olhamos para famosos atores, cantores e esportistas. Em alguns momentos, é possível entender que há uma aura praticamente divina ao redor desses super-heróis, como se eles fossem “escolhidos de Deus” para receber aqueles poderes. Obviamente que a empresa Vought se aproveita disso para criar mais publicidade e influência. Portanto, é possível perceber como esse aspecto é uma espécie de crítica em relação a como nossa sociedade tende a criar ídolos vazios dando a eles exacerbado poder de influência e como isso pode ser perigoso.

Algo que ajuda a dar mais profundidade ao elemento humano da trama é o ótimo trabalho do elenco, que é bem extenso, mas vale ressaltar alguns. Erin Moriaty, interpretando Starlight, a recém-contratada heroína do The Seven, consegue equilibrar bem os momentos em que precisa mostrar ingenuidade e força. Jack Quaid, que interpreta o protagonista, consegue passar de forma precisa os problemas éticos que seu personagem tem. Karl Urban, que faz Billy Butcher, tem um personagem que começa simples, mas ganha camadas ao longo dos episódios e, por isso, oferece mais profundidade em sua atuação. Dominique McElligott traz ótimos momentos de força e fragilidade que rondam a mitologia da personagem. No entanto, o grande destaque é Antony Starr, o Homelander. Chega a ser cativante o modo como o ator modifica suas feições de acordo com a necessidade da cena. Ele vai de um patriota simpático e carismático na frente dos flashs das câmeras para um sociopata maluco quando elas desligam em poucos segundos e com apenas o olhar.

Fazer paródias e piadas com os estereótipos dos super-heróis é algo simples e bastante recorrente na cultura pop. Entretanto, criar uma obra que, mesmo repetindo certos padrões, consegue esvaziar de virtudes esses mesmos estereótipos para criar uma crítica sobre certos comportamentos da nossa contemporaneidade é algo genial. Garth Ennis conseguiu colocar isso em suas HQ’s e Kripke conseguiu transformá-las em audiovisual de uma forma excelente. Além de muito divertida, “The Boys” é uma série que sabe brincar com narrativas clichês para criar algo transgressor e provocante, tudo isso sem perder de vista uma leve e bem-humorada ironia voltada para sociedade atual.

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