E O TEMPO DEIXOU… “UM ESTRANHO NO NINHO” (1975) – A LIGA DOS MENTALMENTE INCAPAZES EM FORMAÇÃO

Há filmes que são maiores que sua época de lançamento. Sua execução e a mensagem embutida em suas histórias os levam à posteridade. Essa atemporalidade só é alcançada por uma combinação muito particular entre uma boa produção, esmero na direção e atores comprometidos com a visão tecida pelo filme. Conta, ainda, o respeito que seus roteiristas dispõem do material que o originou. Se “Um Estranho no Ninho” se encaixa perfeitamente nesses atributos, não é porque ele seguiu à risca uma fórmula para o sucesso, mas por ser, ele mesmo, um máximo exemplo de como ser um grande filme.

Baseado no livro homônimo de Ken Kesey, publicado em 1962, acompanhamos R.P. McMurphy (Jack Nicholson) em sua chegada ao hospital psiquiátrico do Oregon. Ele acaba de ser transferido da prisão rural e em seu currículo conta com inúmeras prisões por agressão e uma acusação de estupro. Seu comportamento leva às autoridades a acreditarem que ele sofre alguma doença mental, mas não demora muito para descobrirmos suas reais intenções: McMurphy busca mesmo é uma vida fácil, longe do trabalho duro da prisão.

estranho no ninhoO malandro só não contava com a presença da enfermeira chefe Mildred Ratched (Louise Fletcher), que controla a ala com mãos de ferro. Crente que seus métodos são capazes de ajustar os indivíduos ao seu meio, a “chefona” não medirá esforços para impor suas regras ao recém-chegado. Ciente do que o espera, McMurphy não perde tempo e aposta com os demais pacientes do hospital que em uma semana acabará com o domínio de Ratched.

Seus planos rapidamente tomam forma. Suas ações, pouco a pouco, contagiam os pacientes da ala. Se antes as regras eram impostas sem nenhum questionamento, a enfermeira passa a sofrer com uma oposição crescente. O roteiro, porém, enfatiza que Ratched, apesar da momentânea perca de influência, detém o poderio; sutilmente, ela passa a manipular as regras de convivência beneficiando a ordem estabelecida.

O filme explora magnificamente a tensão entre os opostos. McMurphy busca com seu bom humor indisciplinado atingir a impavidez da chefona, enquanto a enfermeira, calculista, espera o momento certo para recuperar a ala e seus pacientes.

E ninguém melhor do que Milos Forman (1932-2018) para entender as nuances dessa parábola; afinal, sua filmografia está repleta de personagens transgressores da “ordem natural”, subversivos e inquietos perante um mundo conformado. Suas escolhas na direção buscam exclusivamente engrandecer a mensagem do filme.

Logo de início, o filme abre com um plano aberto das montanhas do Oregon, uma rara visão de liberdade, simbolizada nas possibilidades que a paisagem campestre nos traz. Após esse ponto, Forman utilizará ostensivamente planos fechados, ora isolando seus personagens no enquadro ora servindo-se de close-up exagerados. A exceção será após a fuga dos pacientes para uma pescaria liderada por McMurphy. Aqui, a câmera na mão busca capturar as expressões vívidas dos internados, o movimento do mundo ao redor e detalhes que compõe a nova paisagem.

Fugindo dos floreios, Forman, mantendo a câmera fixa nos atores, registra as sutis, mas substanciais, mudanças em seus personagens. Se antes McMurphy observava seu entorno com uma risada insinuante — sentindo-se intocável —, aos poucos sua postura e expressão mudam, atingidos pela loucura contagiante. Sua fisionomia reflete o estado de sua própria mente. O contrário ocorre com os pacientes da ala: se víamos os diversos homens acanhados, sentados em suas cadeiras eretos, após a chegada de seu novo “líder”, eles relaxam e riem durante a sessão de terapia em grupo.

A mesma câmera parece buscar a eclosão da enfermeira Ratched em momentos de descontrole na ala; nela, Forman utiliza seus zoons tentando desmistificar o olhar inanimado. O efeito é a mesma expressão adquirir traços homicidas. Por outro lado, quando dar a última cartada, sabotando os planos de McMurphy, seus olhos brilham e a tranquilidade maternal da enfermeira torna-se igualmente ameaçadora.

É graças a Louise Fletcher que a enfermeira Ratched tornou-se uma das grandes antagonistas do cinema do século XX. A atriz trouxe a essência da personagem que encontramos no livro de Kesey. A sutileza em suas expressões, a voz à meia altura, o sorriso calculado, a postura; Fletcher dar arrepios, sendo quase impossível não torcer pelo imoral McMurphy ante tamanha frieza. Aliás, conta a lenda que Fletcher sentia-se isolada de seus colegas de filmagens devido à natureza de sua personagem. Para tentar distanciar-se da figura, a atriz andava pelo set com a saia de enfermeira levantava, expondo sua calcinha.

Com o desafio de confrontar a performance de Fletcher, Jack Nicholson entregou uma atuação memorável. Seu sorriso cínico parece maquinar contra o status quo da enfermaria; seus trejeitos emanam a de um malandro com nada a perder; sua fala pausada — quase se equiparando a fala da chefona — insinua deboche. Nos momentos de explosões, Nicholson traz toda aquela carga de insanidade que estamos acostumados a ver em suas atuações, mas, ainda assim, distancia-se de um louco que necessita de internação. Quando McMurphy, combalido, parece estar prestes a perder o confronto, o ator sustenta o mesmo sorriso nos lábios, mas, ao invés da ironia em sua fala, ouve-se ameaças de morte seca, finalizada com uma macabra risada.

O livro, narrado pelo chefe Bromden — redimido apenas na última cena no filme — traz uma constante analogia entre o poder da chefona e o controle que a sociedade exerce sobre nós. Ora ironiza, ora denuncia as instituições e seus atores sociais que suprimem nossa liberdade. Ken Kesey — que trabalhou em um hospital psiquiátrico e experimentou o tratamento de eletrochoque — questiona a chamada loucura e os padrões impostos pela “Liga” (uma poderosa elite que comanda o mundo e se legitima por meio de uma coerção sutil, como os próprios métodos da Ratched). Mas afirma: só perderemos nossa humanidade quando perdermos nossa capacidade de rir. Forman não abriu mão desse humor e conseguiu trazer para a tela a reflexão de Kesey, apesar do autor ter odiado a versão cinematográfica de sua história. Ainda assim, o filme foi apenas o segundo a vencer o “Big Five”: as cinco principais categorias do Oscar (melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz e melhor roteiro). Ainda que não tivesse vencido, era tarde demais, Um Estranho no Ninho já fazia parte da posteridade.

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