CRÍTICA: “O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA” (2018) – A TRISTE REALIDADE ESTRUTURAL

Um jovem negro é morto por ter sua escova de cabelo confundida com uma arma. Uma comunidade é refém do tráfico que a permeia. Brancos não reconhecendo seus privilégios. Todas essas questões fazem parte do roteiro impecável que compõe o filme “O Ódio que Você Semeia”. A obra, baseada no livro homônimo de Angie Thomas e dirigida por George Tillman Jr., é um soco no estômago, que poderia ser apenas ficção, mas vai muito além, sendo projetada na realidade.

O filme conta a história de Starr Carter (Amandla Stenberg), uma adolescente negra que presencia o assassinato do seu melhor amigo Khalil (Algee Smith) por um policial branco. A adolescente se vê na difícil decisão de como se posicionar diante do que presenciou e colhe os frutos da sua decisão.

canecaStarr vive no gueto, num bairro onde predomina a criminalidade e a violência de gangues. Desde uma experiência traumática em sua infância, ela e seus irmãos Seven (Lamar Jhonson) e Sekani (TJ Wright) estudam em uma escola particular, onde são os únicos negros. A protagonista, então, se vê dividida entre dois mundos, já que não se sente parte de onde vive e nem de onde estuda.

Acompanhar a história narrada a partir da protagonista é o que, certamente, mais aproxima o telespectador da experiência. A atriz Amandla Stenberg consegue viver a personagem com intensidade e naturalidade, aproveitando todos os focos da câmera, apresentando uma atuação impecável. Por meio da narrativa que dá ênfase na adolescente, somos capazes de extrair os sentimentos vividos por ela, como a dor de perder um amigo vítima de um sistema racista e a pressão entre testemunhar a injustiça ou seguir sua vida sem se expor à sociedade.

O apoio do pai de Starr (Russel Hornsby) é de suma importância para a decisão de lutar em prol das vidas negras. Esse apoio é construído na narrativa por meio da postura dele, que desde sempre ensina como seus filhos devem se comportar diante da sociedade e do orgulho que devem ter por ser quem são. Além disso, o pai da protagonista representa o jovem que, por ter poucas oportunidades na vida, fez escolhas que o levaram a caminhos ruins e que, depois, passa sua vida tentando se afastar da criminalidade.

O filme, além de mostrar o apoio do pai como alguém que acredita na militância em prol das vidas negras, mostra a importância do envolvimento da comunidade e a participação em manifestações. O filme, além do mais, mostra o peso da influência da mídia em decisões judiciais, principalmente quando se trata de um caso de racismo.

Se o enredo gira em torno de um crime cometido por um homem branco contra a vida de um jovem negro periférico, o comportamento racista mostrado no filme vai além da figura do homem que atira em Khalil, mas toda uma sociedade que, na maioria das vezes, não percebe como suas ações são baseadas em conceitos totalmente estruturais. Exemplo disso é quando um policial negro relata as diferenças entre abordar um homem branco e um homem negro, ou quando adolescentes brancos não reconhecem os privilégios e repetem discursos de preconceito velado.

O diretor George Tillman Jr. conseguiu acertar na escolha dos atores e conta com atuações incríveis, como a de Anthony Mackie, o Falcão de “Vingadores” e Regina Hall, que interpreta a mãe de Starr, Lisa Carter. A aposta para o pai de Starr é certeira, Hornsby e Stenberg desenvolvem uma sintonia admirável entre pai e filha.

Por fim, “O Ódio que Você Semeia” narra uma história sobre moradores de um gueto nos EUA, mas que não se distancia da realidade em que vivemos no nosso país e em muitos outros. A importância da obra parte dessa universalidade triste e que vai muito além do óbvio que nos rodeia todos os dias nos noticiários. E é exatamente a forma como essas questões são colocadas no roteiro que oferecem reflexões importantes que engradecem a obra, além de acertar grandiosamente na construção do desenvolvimento e desfecho da obra cinematográfica. E se um dos papéis da arte é trazer reflexão, é exatamente o que o filme nos traz: até quando continuaremos ignorando a perda de vidas negras e continuaremos sem enxergar os privilégios que nos cercam? “O Ódio que Você Semeia” é uma aula de realidade por meio do audiovisual.

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