MONSTER (2003)

Antes de ser mundialmente conhecida por dirigir “Mulher Maravilha” (2017), Patty Jenkins havia estreado sua carreira de cineasta com uma obra muito superior, “Monster”. Neste filme, a diretora não trabalha com uma heroína fantasiosa e mitológica, mas sim com uma história real de alguém que passou longe de uma vida de heroísmo: a da primeira mulher serial killer dos EUA.

Apesar de ser um filme biográfico, Jenkins toma liberdade de adaptar, omitir e “ficcionalizar” alguns fatos. No longa, Aileen “Lee” Wuornos (Charlize Theron) é uma prostituta que se apaixona por uma jovem chamada Selby Wall (Christina Ricci). Após ser estuprada por um cliente, Lee consegue matar o abusador, e então começa a assassinar vários homens colocando sua vida e seu relacionamento em risco. Na vida real, Aileen matou cerca de seis homens e tinha como cúmplice sua namorada Tyria Moore, que foi substituída por Selby na ficção, com quem passou quatro anos cometendo diversos crimes.

Condenada à morte em 1992, ela foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Limítrofe e chegou a enviar uma carta à Suprema Corte em 2001 confessando os crimes e pedindo para que fosse executada já que, se continuasse viva, mataria novamente. Sua sentença de morte foi aplicada em 2002 por injeção letal.

A prioridade de Jenkins, que dirige e assina o roteiro, não é documentar os crimes de Lee (para isso existem dois documentários, um de 1993 e outro de 2003), mas sim voltar o foco para o relacionamento da personagem com Selby, e explorar os transtornos mentais que a tornaram uma assassina. Apesar de em alguns momentos parecer que a diretora tenta “inocentar” a personagem, tornando-a mais uma vítima do que uma criminosa, tudo que a trama faz é trazer o lado humano de Aileen.

Na vida real e no longa, ela teve uma infância difícil cercada de abandono, preconceito, violência e de abuso físico e sexual. Jenkins traz esse ponto de forma magistral, com bons diálogos e atuações que não pretendem manipular os sentimentos do espectador, nem pelo ódio, nem pela piedade. Mesmo reconhecendo a natureza cruel e violenta de seus crimes, a cineasta tenta mostrar que Lee não é um “monstro”, contradizendo o título da obra.

O maior destaque, sem dúvida, é a atuação de Charlize Theron, que está irreconhecível no papel principal. Mas não foi somente a maquiagem e os 16 quilos a mais que lhe renderam o Oscar de Melhor Atriz em 2004. Charlize se entrega à personagem, assume os trejeitos mais brutos da dela e precisa somente de um olhar para convencer o espectador de que ele está assistindo a uma mulher transtornada e com problemas psicológicos.

Christina Ricci também aparece muito bem sendo uma espécie de catalizador emocional para Lee, e entrega de forma excelente os traumas de sua personagem. O restante do elenco trabalha de forma funcional, já que tem pouco tempo de tela, uma vez que o foco é no casal principal.

No final das contas “Monster” apresenta poucos problemas. O primeiro deles é omissão de alguns pontos da história real que poderiam ter dado mais impacto e tornado o filme mais marcante caso fossem adaptados, como por exemplo o fato do pai de Aileen ter sido preso por pedofilia, ainda que não surgiram evidências de que ele foi responsável por abusar de sua filha.

Além disso, há um problema de equilíbrio entre o os dois primeiros atos. O primeiro é levemente mais arrastado enquanto o segundo é um pouco mais apressado. Isto resulta em uma boa apresentação das personagens, ainda que mais longa que o necessário, mas dificulta a aproximação do espectador com o drama das mesmas. Todavia, nenhum desses aspectos deixa a obra enfadonha ou confusa. Há uma grande sensação de verdade que faz com o público enxergue essas personagens como pessoas reais e entenda os problemas de cada uma delas.

Mesmo considerando que “Mulher Maravilha” tenha tido problemas em seu último ato, e “Monster” não é perfeito, ainda que excelente, Patty Jenkins mostra que tem muito talento como cineasta e uma carreira brilhante pela frente. Sua primeira obra é o melhor exemplo disso: um filme sólido e inteligente que consegue trazer à tona todos aspectos psicológicos de uma figura conturbada e problemática que acabou se desvencilhando por um caminho trágico e violento.

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LADY BIRD (2017)

Umas das críticas mais recorrentes em relação a representação de adolescentes no cinema, é a falta de fidelidade com a vida real. Esse definitivamente não é o caso de “Lady Bird”. Aqui, Greta Gerwig, pela primeira vez dirigindo e roteirizando de forma independente, consegue captar todas as nuances da adolescência fazendo com que seja impossível não se identificar em vários aspectos da trama de seus personagens.

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BLADE RUNNER 2049 (2017)

“O que nos torna humanos?” Este parece ser o questionamento principal da história criada por Philip K. Dick em seu romance “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de 1968, que foi maravilhosamente adaptado para o cinema em “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott. Nas primeiras cenas da recente continuação “Blade Runner 2049” fica evidente qual é a intenção do novo diretor Denis Villenueve: manter a essência da obra original sem deixar de imprimir sua própria marca. O novo filme nos tras um novo enredo sem deixar a essência do primeiro de lado mantendo a filosofia presente desde o livro de Dick.

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MOTHER! (2017)

O cinema, assim como qualquer outra forma de arte, nem sempre precisa expor sua mensagem com clareza. Um enredo metafórico e subjetivo pode ser tão ou mais interessante do que contar uma história diretamente. Deixar que uma obra seja passível a diferentes interpretações a torna intrigante e reflexiva. O novo filme de Derren Aronofsky (‘O Lutador’ e ‘Cisne Negro’) segue exatamente por esse caminho, causando um incômodo e exigindo que o público pare para refletir sobre o que viu na tela.

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AMITYVILLE: THE AWAKENING (2017)

Foram, ao todo, dezoito filmes baseados nos fatos reais que deram nome a “The Amityville Horror” (1979), longa original do diretor Stuart Rosenberg, além de um livro de mesmo nome de 1977, escrito por Jay Anson. Grande parte dos longas foram lançados diretamente em home-video, sendo que a última leitura a aparecer no cinema foi a do ano de 2005, desastrosamente dirigida por Andrew Douglas. E depois de alguns anos de adiamentos e incertezas, a franquia “Amityville” está de volta às telonas.

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